07/06/2013 at 12:11 Deixe um comentário

Caros amigos e seguidores: no passado dia 24 de Maio, lancei mais um  livro, o meu primeiro romance “O Passar dos Dias”. Foi mais um momento lindo, rodeada de família e amigos que se mostraram presentes nesta ocasião. A apresentação esteve a cargo de um amigo, Dr. José Viegas Soares, que fez o favor de me enviar o texto dessa mesma apresentação e que aqui deixo publicado para recordação de uns e conhecimento de outros. A todos , bem hajam!

O Passar dos dias

Numa pequena biografia que a Mª João me facultou, lê-se “Em 2012 também, terminei “O Passar dos Dias”, o meu primeiro romance. Trata-se de uma história simples, de personagens que me deram prazer criar e contada no passar dos dias que é, afinal, a vida…”

Modéstia da Mª João porque o seu livro tem como tema central a homossexualidade masculina e a sua aceitação pela família.

Problema presente nos dias de hoje com contornos bem diferentes, dos que já teve ao longo dos anos e das civilizações e culturas que têm povoado o planeta. Desde a aceitação de Gregos e Romanos até à total rejeição o tema é sempre um tema sensível quer social quer familiarmente.

Vão longe os tempos em que, neste Portugal a homossexualidade masculina era considerada crime e punida com o desterro para as colónias mais tarde chamadas províncias ultramarinas. Claro que esta punição dependia do punido e do seu estatuto social, o peso e influência da família na sociedade portuguesa e muito especialmente nas relações da família ou do seu chefe com o regime.

Mas nos dias de hoje a aceitação dessa orientação sexual ainda não é pacífica no seio das famílias ainda que a legislação o permita e legalize.

Mª João situa este problema numa época mais ou menos circundante ao 25 de Abril de 74. Sem grandes preocupações cronológicas o problema surgirá pelo meio o livro, mais concretamente pelos capítulos 18 e 19.

Mas para além deste tema central poderemos ainda considerar os Amores Desencontrados de Mª Inês e de Mª Cláudia, de Duarte, de David, de Sebastião. E estes desencontros vão entroncar-se na aceitação /rejeição da homossexualidade masculina.

A presença dominante de uma mãe solteira, a protagonista, Mª Inês, vitima desta trama homossexualidade masculina/amores desencontrados, não é um problema sentido é, antes pelo contrário, um momento de felicidade.

Toda esta trama pode ser olhada segundo alguns eixos que a análise paramétrica do Professor António José Saraiva, nos dá de modo a enquadrar o romance “O passar dos Dias”.

Olhando a história que Mª João nos conta Começamos no primeiro capitulo com o domínio do Thanatos polo do eixo Eros-Thanatos, Eros (força vital, alegria , vida) Thanatos (morte, escuridão tristeza, etc). A morte de Duarte irmão mais velho da protagonista leva-a a um isolamento na casa da praia em tempo (também ele thanatos . chuva, vento, frio) de inverno onde chora esse irmão muito querido. Diz Mª João pela voz da protagonista Mª Inês “E o ar carregado de tempestades é como o pensamento carregado de maus presságios, as cartas deitadas em cima da mesa, a morte à espreita numa armadilha fatal e segura” e mais adiante neste momento negro de Thanatos “ A morte de um filho, ainda para mais quando é desejada pela próprio, deve ser um rude golpe”..”Adorava o Duarte e ele faltar-me-à toda a vida”

Mas logo no 2º capitulo surge Sebastião amigo de infância e muito mais do que amigo como a seguir se verá e passamos do domínio do Thanatos para o de Eros Diz Mª Inês“ Enfeitiçou-me ou eu deixei que o seu encanto fizesse a suposta obra” mas Sebastião vai-se embora e de novo voltamos ao polo negativo ainda que por pouco tempo uma vez se vai atingir um climax no capitulo 3 quando Mª Inês sabe que está gravida de um filho de Sebastião que entretanto partiu em busca de alguma coisa que nem ele sabe o quê, talvez mais uma fuga do que uma partida para um qualquer fim.

Feliz por essa filha diz ela “ Ia ter um bébé…O pai só podia ser Sebastião, há anos que não tinha sexo com outro homem. Sorri interiormente, feliz com a ideia, acarinhando-a ainda sem pensar em consequências” (Eros) triste (Thanatos) por o pai não estar perto dela.

Vamos encontrar esta oposição ao longo de todo o livro, não só em toda a diegese, como capítulo a capítulo.

Mas, e voltaremos a esta oposição, não queríamos deixar de referir a existência ainda que com menos intensidade de outros eixos que também estruturam a trama romanesca.

Dentro- Fora é outro dos eixos visíveis. Na realidade começamos com a família de Mª Inês O pai Rodrigo oficial do exército, duro e seco, mas por quem ela tem muito carinho, a mãe, Madalena mulher submissa por muito amor a Rodrigo, As avós, materna, Salomé onde o Eros vai vencer depois da morte do marido levando-a à vida no mar que tanto ambicionou e a avó Bernarda mulher forte quase camponesa. O irmão Duarte figura central da narrativa onde tudo começa, a tia Zita irmã do avô Germano, o marido da avó Salomé, figura de mulher doce, suave discreta, mas de importância para a vida de Mª Inês como ela refere” colei fotografias da tia Zita desde a jovenzinha que fora, no tempo de Salomé, até se transformar na presença que para sempre me ficou na memória, com a sua blusa de seda e o seu eterno odor a lavanda, a sua pele clara e fininha, os seus cabelos brancosa que lhe emolduravam o rosto” que se passeia pelo romance deixando no ar o seu eterno cheiro a lavanda mesmo quando esse cheiro só é sentido por Mª Inês. Mas á medida que a história vai avançando há um Fora que se vai gradualmente transformando em Dentro. O nascimento de Mª José vem trazer para o polo Dentro os familiares do pai, amigos de infância de Mª Inês mas que em consequência do nascimento da Zé passam a integrar a família ou melhor dizendo as duas famílias. Com a passagem de Mª Cláudia e Amélia respectivamente Irmã e Mãe de Sebastião. para o polo Dentro fica ao longo do romance no eixo dentro-fora apenas no polo Fora o grande ausente, o pai da Zé a paixão de Mª Inês, Sebastião. Mas este polo acabará por ficar vazio, mas isso sabe-lo-à que ler o romance.

Poderíamos ainda considerar neste eixo a existência de Pedro, antigo colega, primeiro amor dos tempos de escola, mas que surge e desaparece muito rapidamente sem nunca deixar o polo Fora do eixo Dentro-Fora. É como que um ligeiro soprar de vento que de imediato se esvai.

Um último eixo que poderemos considerar é o eixo Situação-Tempo, ou seja uma determinada realidade (a situação) e a importância que essa mesma realidade tem (aqui na trama da história) o Tempo. Olhando a narrativa de Mª João vemos a morte de Duarte e a sua dominância ao longo do desenrolar dos acontecimentos que nos vão sendo narrados.

É a morte de Duarte e o desconhecimento das razões dessa morte que servem de agregador de toda a história. Porquê o suicídio, porquê o silencio que toda a gente mantem sobre esta morte silêncio que como em dada altura Mª Inês pensa detectar só existe para ela dado que Mª Cláudia, Amélia e não só sabem a verdade.

Quando Inês protesta Mª Cláudia diz-lhe que a única coisa que todos queriam era poupa-la a esse desgosto.

Diz Inês

“ Aquela revelação, a juntar às restantes, acabou comigo. Então era isso. Era esse o segredo de ambos, do Duarte. E eu? Apeteceu-me gritar, gritar tanto que calasse as vozes que falavam dentro de mim, gritar até silenciar as vozes do meu pai, do meu irmão, da Mª Cláudia.”

Um outro aspecto ainda a considerar na estrutura da narrativa, o universo feminino que domina em todo o livro, facto que de resto autora vai referindo com regularidade e que atinge o seu expoente máximo no capitulo 32. Oiçamos Mª Inês“ à mesa, olho à minha volta para ver aqueles rostos femininos, todos diferentes mas todos bonitos. Penso mais uma vez como a minha família tem crescido nesse universo de mulheres e em como é coeso e forte (o polo Dentro da oposição Dentro-Fora)

Terminaria voltando ao eixo Eros-Thanatos onde o domínio de Eros se acentua nos ultimo capítulos, isto é depois de toda uma narrativa onde problemas actuais são abordados com a crueza que os mesmos contêm em si próprios, ou seja sob o domínio de Thanatos terminamos com uma lufada de ar fresco, um sol radioso Eros na sua plenitude como força vital, criadora e quase sentimos a tia Zita passando atrás da família já em pose para o retrato final deixando no ar aquele cheiro a lavanda que tão bem a caracterizava.

Anúncios

Entry filed under: Uncategorized.

Tertúlia acerca do meu último livro

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Calendário

Junho 2013
S T Q Q S S D
« Maio    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Email de Contacto

mariajoaoveigalivros@gmail.com

%d bloggers like this: