E continuando…

04/01/2013 at 11:57 Deixe um comentário

Hoje vou postar uma outra série dos textos dos meus programas, e viajaremos desde Heródoto ao Natal de Dickens! De salientar que estes programas podem ser ouvidos na Mais Oeste em 94.2 FM , todas as 6ªs-feiras, com repetições nos seguintes horários: 08:55, 11:55, 14:55, 17:55, 21:55, 1:55 e 4:55. 

Então, cá fica:

Bem vindos de novo a este espaço onde falamos de livros e de leituras. E falar de livros é falar de histórias, da ficção criada para nosso encantamento. Mas por vezes, é na própria realidade que se encontra a melhor ficção. Ou seja, a partir do mundo que nos rodeia, construímos histórias, que, por vezes o são da própria História, com H maiúsculo – se é que ainda me é permitido usar tal letra…

O primeiro autor com um interesse indesmentível nesta matéria das histórias que a História dos homens e do mundo têm, parece ser incontestavelmente Hérodoto.

Hérodoto viveu entre 485 e 425 a.C. Nasceu em Halicanarsso, que hoje é Bodrum, na Turquia e foi criado pelo seu tio Pamiatis que lhe ofereceu não só uma boa educação, como também muitas viagens pelo mundo antigo. A primeira que fez foi ao Egipto mas, mais tarde, veio a percorrer a Líbia, a Babilônia, a Pérsia, a Macedônia entre outras.

Ficou conhecido como o “pai da História”, pois a ela dedicou toda a sua vida. Antes de Heródoto, já existiam crónicas e textos épicos, e também estes haviam preservado o conhecimento do passado. Mas Heródoto foi o primeiro não só a gravar o passado mas também a considerá-lo um problema filosófico e a encará-lo como um projecto de pesquisa destinado a revelar um maior conhecimento sobre o comportamento humano. O método que desenvolveu e a palavra que utilizou para o caracterizar, “historie”, que previamente tinha significado simplesmente “pesquisa”, tomou a conotação actual de “história”.

A sua principal obra, escrita provavelmente entre 450 e 430 a.C., foi por essa razão baptizada exactamente de “Histórias” encontrando-se dividida em 9 livros dedicados a cada uma das nove musas, que segundo os eruditos alexandrinos, eram responsáveis pela arte, Clio, Euterpe, Tália, Melpiomene, Terpsicore, Erato, Polímnia, Urânia e Caliope.

Os cinco primeiros livros debruçam-se sobre o Império Persa, já os outros quatros consubstanciam relatos sobre as guerras, com destaque para as Guerras Médicas, entre gregos e persas, para a história de Esparta e Atenas, a destruição desta e a Batalha de Salamina, que foi o combate entre a frota persa e a grega, tendo esta saído vencedora.

 

De salientar o livro II, onde o autor faz uma descrição pormenorizada do Egito, escrevendo sobre a sua história, a geografia do país, sobre religião, reis, animais sagrados e costumes;

Além dos nove livros Hérodoto escreveu aquilo que se chama de um encerramento, onde o final das Histórias é problemático. A questão fundamental é se a obra está inacabada ou se Heródoto chegou até ao final cronológico que, em sua opinião, poria fim à guerra. Isto até porque, além disso, há promessas inconclusivas na narrativa (como onde diz que falará dos assírios), que se poderão também debitar à falta de uma última revisão.

Segundo consta, Heródoto fez leituras públicas de sua obra em Atenas, por volta do ano de 445 a.C. tornando-se um “logios” – isto é, um recitador de prosa ou histórias. Heródoto terá feito roteiros através das cidades gregas e dos maiores festivais atléticos e religiosos, onde dava espectáculos pelos quais recebia um pagamento. Em 431a.C.,a guerra do Peloponeso rebentou entre Atenas e Esparta. Poderá ter sido esse conflito- que dividiu o mundo grego- que o inspirou a reunir todos esses relatos numa narrativa contínua –  as suas “Histórias”.

Esta obra foi frequentemente acusada no velho mundo de influenciável, imprecisa e plagiária. Ataques semelhantes foram preconizados por alguns pensadores modernos, que defendem que Heródoto exagerou na extensão das suas viagens e nas fontes criadas. Contudo, o respeito pelo seu rigor tem aumentado na última metade do século, sendo actualmente reconhecido não apenas como pioneiro na história, mas também na etnografia e antropologia.

Vale a pena ressaltar ainda a sua contribuição para os estudos geográficos, e, por esse feito, a revista de geografia geopolítica de maior tiragem em França leva seu nome.

No que diz respeito à vida pessoal de Heródoto, sabe-se que foi defensor daquilo que hoje conhecemos como democracia, tendo sido exilado de Halicarnasso, após um golpe de estado frustrado em que estava envolvido contra a dinastia no poder, retirando-se para a ilha de Samos. Parece nunca ter regressado a Halicarnasso, embora nalguns relatos das “Histórias” pareça sentir orgulho de sua cidade natal e da respectiva rainhaArtemísia I de Cária.

Deve ter sido durante o exílio que empreendeu as viagens que descreve em  “Histórias”. Estas viagens conduziram-no ao Egipto, à Ucrânia, a Itália e à Sicília. Heródoto refere-se ainda a uma conversa tida com um informador em Esparta, e muito certamente terá vivido durante um determinado período em Atenas. Nesta, registou as tradições orais das famílias mais proeminentes, como a de Péricles, por exemplo. Mas os Atenienses não aceitavam os estrangeiros como cidadãos, e quando Atenas apoiou a colónia de Thurii na aniquilação de Itália em 444 a.C., Heródoto ter-se-á tornado um colono. Desconhece-se se lá morreu ou não.

Longe de serem enfadonhos livros de estudo, as “Histórias” de  Heródoto são um passeio pelo passado, uma agradável visita guiada pela mão de um bom comunicador, sobretudo, de um homem de uma cultura além da média. Boa semana para todos!

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Mais uma vez, sejam bem-vindos à nossa rubrica habitual.

José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa do Varzim em 25 de Novembro de 1845. Curiosa e escandalosamente para aquela época, foi registado como filho de José Maria d`Almeida de Teixeira de Queirós e de mãe ilegítima, dado o seu nascimento ter sido fruto de uma relação ilegítima entre D. Carolina Augusta Pereira de Eça e do então delegado da comarca, tendo sua mãe fugido de casa para que a criança nascesse afastada do escândalo da ilegitimidade.

 

Por esta razão, o pequeno Eça foi levado para casa de sua madrinha, em Vila do Conde, onde permaneceu até aos quatro anos. Em 1849, depois dos pais terem contraído matrimónio, Eça foi então levado para casa dos seus avós paternos, em Aveiro, onde permaneceu até aos dez anos. Só nessa época se juntou aos seus pais, vivendo com eles no Porto, onde efectuou os estudos secundários.

 

Em 1861, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e logo se junta ao famoso grupo académico da Escola de Coimbra que, em 1865, se insurgiu contra o grupo de escritores de Lisboa, a apelidada Escola do Elogio Mútuo.

 

Esta revolta dos estudantes de Coimbra é considerada como a semente do realismo em Portugal, que no entanto já tinha sido iniciada, tendo à cabeça Antero de Quental e também Teófilo Braga contra António Feliciano de Castilho, como já referimos em anterior programa.

É aliás por influência deste companheiro e amigo – Antero de Quental – que Eça se entrega ao estudo de Proudhon, vindo a aderir ao grupo do Cenáculo. Assim, em 1870, tomou parte activa nas Conferências do Casino, essas sim, marcas definitivas do início do período realista em Portugal, onde Eça de Queiroz profere em conferência o tema “O Realismo Como Nova Expressão de Arte”, no Casino de Lisboa, em 1871.

Também por essa época inicia a colaboração com Ramalho Ortigão, em “As Farpas”.

Eça de Queiroz que, entretanto, terminara o curso em 1866, fixa-se em Lisboa, exercendo simultaneamente advocacia e jornalismo. Dirigiu o Distrito de Évora e participou na Gazeta de Portugal com folhetins dominicais, que seriam, mais tarde, editados em volumes com o título “Prosas Bárbaras”.

Mas a alma do escritor era irrequieta, pelo que, em 1869 decidiu assistir à inauguração do Canal do Suez, e assim viajou pela Palestina onde recolheu informação que usou na sua criação literária, nomeadamente nas obras O Egipto e A Relíquia.

Decidiu entrar para o Serviço Diplomático e foi Administrador do Concelho em Leiria, cidade em que escreveu “O Crime do Padre Amaro”, o seu primeiro grande trabalho e marco inicial do Realismo em Portugal. Foi considerado o melhor romance realista português do século XIX, e Eça o único romancista português que conquistou fama internacional nessa época.

Foi duramente apontado pelas suas críticas ao clero e à própria pátria, críticas a que voltaria por ocasião de outras obras como adiante veremos.

Mercê da sua carreira diplomática, em 1873 é nomeado Cônsul em Havana, e dois anos mais tarde, foi transferido para Inglaterra, onde residiu até 1878. A estadia nas terras britânicas inspiraram-no para começar a escrever “O Primo Basílio”, “O Mandarim” e “A Relíquia”, e começar também a arquitectar “Os Maias”, a sua obra de fôlego.

Tal como no “Padre Amaro”, em que denuncia a corrupção do clero,  nestas três obras, Eça desmascara a hipocrisia dos valores burgueses, numa crítica social que se une à análise psicológica mais notória. É com essa fineza na escolha das palavras, como uma faca bem afiada, que Eça descasca vários preconceitos e põe a nu as almas das gentes que, com facilidade, se reconhecem nas suas páginas. Em 1885, para sua grande felicidade, visita em Paris, o escritor francês Émile Zola, ele próprio uma referência literária de um novo movimento literário, oriundo da análise científica e experimental do ser humano: o naturalismo, que se propõe a essa análise do ser humano, da moral e da sociedade.

Também Zola escrevera “O Crime do Padre Mouret”, que, muitos injustamente espalham que Eça plagiou. Nada disso, contudo. Ainda que as críticas de fundo tenham um destinatário semelhante, o clero, o romance queirosiano capta de tal forma a alma lusa e a sociedade daquela época com tal eficácia, que dificilmente se pode denunciar como plágio.

Em 1886, casou, também de forma “sui generis”, já que tinha 40 anos e a noiva apenas 29.

Dois anos depois recebe com alegria a notícia da sua transferência e colocação no consulado de Paris. É na cidade das Luzes que termina e publica “Os Maias” e “A Ilustre Casa de Ramires”. Data também dessa ocasião a “Correspondência de Fradique Mendes” que vem a lume na imprensa, para onde, nos últimos anos foi escrevendo fundando e dirigindo a “Revista de Portugal”.

Sempre que viajava até a Portugal, reunia em jantares com o grupo dos Vencidos da Vida, os acérrimos defensores do Realismo, assim chamados por terem sentido falhar todos os seus propósitos.

Eça de Queirós o fotógrafo literário da sociedade da sua época, morreu em Paris a 16 de Agosto de 1900.

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GRAHAM GREENE

Henry Graham Greene nasceu em Berkhamsted a 2 de Outubro de 1904 e faleceu em Vevey a 3 de abril de 1991. Mais conhecido como Graham Greene, foi um escritor inglês, que deixou uma obra composta de romances, contos, peças teatrais e críticas literárias e de cinema. Formou-se na Universidade de Oxford, e começou a sua carreira como jornalista, trabalhando como repórter e subeditor do célebre “Times”. Publicou cerca de 60 romances.

Durante a Segunda Guerra Mundial, de 1941 a 1943, trabalhou para o governo inglês no departamento de relações externas, dirigindo um escritório em Freetown, Serra Leoa. Muitos de seus romances, a partir de então, tiveram como tema ou pano de fundo a espionagem, vindo alguns deles a ser adaptadas ao cinema.

O seu primeiro livro de sucesso foi “O Expresso do Oriente” publicado em 1932.

Muitas outras obras de cariz político – em que se fala de Cuba ou de um ainda distante Chile –  se lhe seguiriam, com destaque para “O nosso homem em Havana” e “O Terceiro Homem”, cuja acção se situa em Viena de Áustria, após a Segunda Guerra Mundial, uma cidade dividida e gerida pelas quatro potências aliadas.  Um romancista de segunda linha, chega à cidade para visitar um seu amigo de longa data. Logo descobre que aquele morreu, e em circunstâncias muito suspeitas. Enquanto se faz passar por um célebre escritor, dá início uma investigação por conta própria e procura resposta para a pergunta – o que é que o seu amigo fez para merecer a morte?

Este romance foi escrito em 1949 como argumento para um filme realizado e interpretado por Orson Welles, e é uma das mais importantes narrativas breves de Graham Greene, em que o autor se debruçou sobre os meandros do mundo da espionagem e da Guerra Fria.

Podemos dizer que duas temáticas fundamentais percorrem a sua obra transversalmente: a política, pelas razões já expostas, e a religião.

Convertido ao catolicismo em 1926, GG deparou-se com os inúmeros dilemas morais e espirituais que marcaram a sua época. Foi através dos seus personagens –  e que personagens formidáveis! – que GG os expôs de forma por vezes contundente  mas sempre corajosa e frontal. Em “O nó do problema”, por exemplo, apresenta-nos Scobie, um escrupuloso subcomissário da polícia, que vive há 15 anos numa colónia inglesa da África Ocidental, onde tem uma existência parda de casos que nunca se destrinçam e doses diárias de álcool. Ademais, um casamento falhado com uma mulher a quem ama por piedade, sentido de responsabilidade, hábito ou o que quer que seja que leva dois seres humanos a partilharem uma vida sem o menor vestígio de intensidade. Estas as circunstâncias em que Scobie encontra uma outra mulher, também digna da seu compaixão, com a qual se envolve numa situação altamente irregular para um católico praticante. Pelo meio, soçobra num momento de fraqueza ou de inconsciência, conseguindo pôr todos os que o rodeiam a desconfiar da sua integridade, dado não ter levado em consideração a importância que para um polícia tem a aparência da honestidade, não lhe bastando sê-lo. Scobie, cumpridor e honrado, deixa-se fazer refém de mentiras que tiveram um infeliz desfecho num homicídio e envolve-se num adultério de que não se arrependeu, o que o impossibilita de comungar. A sua vida torna-se-lhe insustentável e um estranho sentimento de culpa apossa-se dele.

Dividido entre duas mulheres, entre a compaixão e a fidelidade, dilacerado entre a sua consciência pecadora e o seu Deus,ele não consegue ultrapassar asa situações. Ele, que, no seu íntimo sente repugnância em causar pena seja a quem for, faz sofrer a todos. Por isso prefere desaparecer. Mata-se, sabendo que a morte implica a condenação eterna. Diz GG, “Scobie vive perseguido por um estranho sentimento de culpa que sempre sentiu como se fosse responsável por qualquer coisa futura impossível de prever”.

Para se resolver um problema, tem de encontrar-se o nó e depois tem de desatar-se o nó. Scobie não encontrou o nó certo ou não soube desatá-lo.

Este o dilema e desfecho moral do personagem, para o qual a sua própria trajectória religiosa se sobrepõe a toda a realidade que o rodeia, pois o fundamental é esse mesmo nó, desvanecendo-se todo o ambiente em que o romance se situa, em plena segunda guerra mundial, numa África onde os movimentos independentistas ganhavam força.

O mesmo sucede em “O Poder e a Glória”, o romance mais lido no século XX, em língua inglesa, fruto de uma viagem que Graham Greene fez às terras de Tabasco, e no qual dá a conhecer a perseguição religiosa que teve lugar nos anos vinte no México.

O livro descreve, mais do que os locais onde decorre, as peripécias e os dramas do único sacerdote católico que continua a exercer, clandestinamente, o seu ministério. Perseguido pela polícia, carrega consigo as cicatrizes da vida e do tempo: não era nem herói nem santo, vivia como fugitivo, cheio de medos, com a consciência de ser um pecador e o remorso de ter uma filha…

GG escreve um romance comovente em que, para este padre perseguido e fraco, a fé é uma certeza que não se deixa determinar pelas misérias.

 

Partilho, contudo, da opinião de outro escritor, William Faulkner, acerca de “O Fim da Aventura “, um romance de 1951 de GG. – “Para mim  – diz Faulkner – é um dos mais verdadeiros e comovedores romances do meu tempo, em qualquer língua.”

Esta opinião, vinda de quem vem, compele qualquer leitor a devorar o livro. Posso afirmar que já o li e reli uma quantidade muito generosa de vezes, sempre de um fôlego.

A ideia inicial do livro é bem simples, porém, peculiar: o eterno triângulo amoroso, que se distorce quando um quarto personagem invade a acção: Deus. Podíamos sintetizar da seguinte forma: Henry ama Sarah, com quem é casado. Esta não o ama. Ama Maurice. Henry, sentindo-se traído pela mulher, decide contratar um detective para vigiar Sarah, confidenciando esta intenção a Maurice, de quem, entretanto, se tornara amigo. Henry acaba por recuar na intenção, mas Maurice, que também sente o amargo travo do ciúme de Sarah,  avança com a contratação do detective. E aí temos: um marido e um amante unidos na procura de um terceiro rival. E é esta situação, estanha que nos conduz a um caminho inesperado, à busca do sentido do amor, a quatro destinos marcados pela paixão. Mais ainda: a vida de Sarah, percebida aos poucos, revela os eternos dilemas do ser humano: a natureza das paixões, os caminhos, por vezes, absurdos, da felicidade e a natureza do sagrado a interferir constantemente nos destinos. De novo, este é um dos  aspectos mais perturbadores do romance: o sagrado e a sua influência nas nossas vidas.

Sempre que lhe pego, tenho a vívida esperança que, desta vez, o enredo termine de forma diferente para os personagens, mas o final mantem-se perturbador e encantador. Apesar disso, é um dos livros da minha vida, daqueles que levaria comigo para uma ilha deserta, e a cujo apelo nunca resisto Também foi adaptado ao cinema, mas, embora o filme siga o argumento muito de perto, não consegue imprimir no espectador a mesma intensidade e a surpresa que apanham o leitor desprevenido.

Outra característica contrastante que GG desenvolveu na sua escrita foi o humor. “O nosso Agente em Havana” é disso exemplo. O romance é, em grande parte, uma espécie de paródia à euforia quase histérica da espionagem internacional nos tempos da guerra fria. O agente secreto personagem principal desta história, Mr. Wormold, não passa de uma caricatura do espião, mas não deixa de ser um simpático personagem ao mesmo tempo credível e risível, com um toque de ridículo.

Também assim em “Monsenhor Quixote”, onde o autor faz uma recriação da célebre obra de Cervantes – D. Quixote de la Mancha.

Padre Quixote, um paroquial da pequena cidade de El Toboso, na região espanhola de La Mancha, acredita ser um longínquo descendente do personagem de mesmo nome criado por Cervantes e tenta aproximar a sua vida da dele, mesmo que as pessoas insistam em fazer-lhe ver que Dom Quixote é apenas um personagem fictício. Assim, baptiza o seu Seat 600 de “Rocinante”, tal como o cavalo do seu homónimo, e a santa da sua devoção vira uma Dulcineia. O prior, que levava uma existência simples e tranquila, à conversa com o prefeito comunista da aldeia, a ouvir as críticas do bispo e a discutir com Teresa, a sua velha empregada ajuda, um dia, um aflito bispo italiano cujo carro se avaria na estrada, recebendo, semanas depois, o título de monsenhor das mãos do próprio Papa. A partir daí a sua vida toma um outro e inesperado rumo, com diversas aventuras e situações pouco comuns a um padre. Apesar das várias cenas cómicas, que nos arrancam francas gargalhadas, o livro não deixa de fora temas como a discussão da vida numa Espanha pós-ditadura, o comunismo, e, sempre, a  católica.

 

Aconselho, assim, a que não deixem de ler este britânico, este homem que, além de brilhante contador de histórias, tem a rara capacidade nos deixar a pensar no sentido da vida.

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FERNANDO PESSOA

Na semana que passou, mais precisamente no dia 30 de Novembro, transcorreu mais um aniversário da morte daquele que foi, sem dúvida, um dos maiores poetas portugueses de sempre Fernando António Nogueira Pessoa, vulgo Fernando Pessoa, que nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1888 e aí faleceu a 30 de novembro de 1935.

Além de poeta, foi filósofo e escritor, tendo a sua obra sido considerada pelo crítico literário Harold Bloom um “legado da língua portuguesa ao mundo”.

Por ter sido educado na África do Sul, para onde foi aos seis anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu perfeitamente o inglês, língua em que escreveu poesia e prosa desde a adolescência. Fernando Pessoa traduziu também várias obras inglesas para português e obras portuguesas (nomeadamente de António Botto e Almada Negreiros) para inglês.

Ao longo da vida trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como correspondente de língua inglesa e francesa. Foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária em verso e em prosa. Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um “drama em gente”.

Iniciou a sua atividade de ensaísta e crítico literário com o artigo «A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada», a que se seguiriam «Reincidindo…» e «A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico» publicados em 1912 pela revista “A Águia”. Frequenta a tertúlia literária que se formou, no Café A Brasileira, no Largo do Chiado em Lisboa, embora mais tarde, já nos anos vinte, o seu café preferido venha a ser o Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, onde escrevia e se encontrava com amigos e escritores.

Em 1915 participou na revista literária “Orpheu”, a qual lançou o movimento modernista em Portugal, causando algum escândalo e muita controvérsia. Esta revista publicou apenas dois números, nos quais Pessoa publicou em seu nome, bem como com o heterónimo  de Álvaro de Campos. No segundo número da Orpheu, Pessoa assume a direcção da revista, juntamente com Mário de Sá-Carneiro.

Em Outubro de 1924, juntamente com o artista plástico Ruy Vaz, Fernando Pessoa lançou a revista “Athena”, na qual fixou o «drama em gente» dos seus heterónimos, publicando poesias de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, bem como do ortónimo Fernando Pessoa.

 

Como escreve sob a voz de Alberto Caeiro, em “Poemas Inconjuntos”, 1913-1915, publicados precisamente na “Athena” em 1925, 

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,

Não há nada mais simples.

Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.

Entre uma e outra todos os dias são meus.”

 

Tudo imensamente simples para o celebrado autor da “Mensagem” que dizia uma frase que me orgulha repetir – “A minha pátria é a língua portuguesa”.

Deixo-vos com a ficha pessoal do Poeta, escrita pelo seu próprio punho e génio.

 

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado civil: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será “tradutor”, a mais exacta a de “correspondente estrangeiro” em casas comerciais. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal – Caixa Postal 147, Lisboa).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. É o seguinte o que, de livros ou folhetos, considera como válido: “35 Sonnets” (em inglês), 1918; “English Poems I-II” e “English Poems III” (em inglês também), 1922; livro “Mensagem”, 1934, premiado pelo “Secretariado de Propaganda Nacional” na categoria Poema”. O folheto “O Interregno”, publicado em 1928 e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas e, sobretudo, à Igreja Católica. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da Ordem dos Templários de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: “Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação”.

Posição social: Anti-comunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Lisboa, 30 de Março de 1935.

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Bem vindo à emissão de Natal do “Livros, leituras e companhia”. Vamos hoje falar de um célebre conto de Natal e do seu autor.

 

Charles Dickens foi o mais popular dos romancistas da era vitoriana e contribuiu para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa. A fama dos seus romances e contos pode ser comprovada pelo facto de todos os seus livros continuarem até hoje a ser editados. Entre os seus maiores clássicos destaca-se “A Christmas Carol”, isto é, “Um conto de Natal”.

 

Charles era filho de John Dickens e de Elizabeth Barrow e foi ao ser educado por esta que tomou gosto pelos livros. Durante três anos frequentou uma escola particular, mas, quando ainda era adolescente, o seu pai foi preso por dívidas e Dickens teve que ir trabalhar numa fábrica que produzia graxa para sapatos.

 

Alguns anos depois, a situação financeira da família melhorou, graças a uma herança recebida pelo pai. Mas sua mãe não permitiu que ele saísse logo da fábrica, o que fez com que Dickens nunca lhe perdoasse essa atitude. As más condições de trabalho da classe operária tornar-se-iam um dos temas recorrentes da sua obra.

 

Em 1832 conseguiu um emprego como repórter no jornal “Morning Chronicle”. Passou a publicar crônicas humorísticas sob o pseudônimo de Boz, o que lhe grangeou espaço no jornal para apresentar os capítulos de “As Aventuras do Sr. Pickwick”, com as quais estabeleceu o seu nome como escritor.

 

Dois anos depois começou a divulgar, em folhetins semanais, “Oliver Twist” onde, pela primeira vez, apontava os males sociais da era vitoriana.

 

Já considerado um autor de sucesso, Dickens escreveu “Vida e Aventura de Nicholas Nickleby”, a “Loja de Antiguidades”, entre outros títulos.

Foi em 1843 que publicou o seu mais famoso conto de Natal, “A Christmas Carol” e em 1849 um de seus mais conhecidos romances, “David Copperfield”, inspirado em grande parte, na sua própria vida.

 

Dickens escreveu ainda “História de Duas Cidades”, “Grandes Esperanças”, e “Tempos Difíceis”. Nos últimos anos de sua vida iniciou o livro “O Mistério de Erwin Drood”, mas morreu antes de concluí-lo.

 

Mas nesta quadra, debrucemo-nos sobre o mais célebre livro de Natal de Dickens.

Com várias traduções em Portugal, o livro foi escrito em menos de um mês, originalmente para pagar dívidas, mas tornou-se um dos maiores clássicos natalinos de todos os tempos.

Nele se relata a noite de Ebenezer Scrooge, um homem avarento que não gosta do Natal. Trabalha num escritório em Londres com Bob Cratchit, seu pobre, mas feliz empregado, pai de quatro filhos, um dos quais, o frágil Pequeno Tim que tem problemas nas pernas, lhe merece especial carinho.

Numa véspera de Natal, Scrooge recebe a visita de seu ex-sócio Jacob Marley, morto há sete anos naquele mesmo dia. Marley diz que seu espírito não pode ter paz, já que não foi bom nem generoso em vida, mas diz a Scrooge que ele ainda tem uma chance, e avisa-o de que três espíritos o visitarão…

Quando o primeiro espírito chega apresenta-se como o Espírito dos Natais Passados, levando Scrooge de volta no tempo e fazendo-o reviver a sua adolescência e o início da sua vida adulta, quando ainda amava o Natal. Ao desaparecer, o espírito deixa Scrooge só no seu quarto, triste com as lembranças assim despertadas.

O segundo espírito é um gigante risonho e apresenta-se como sendo o Natal do Presente. Ele mostra a Scrooge as celebrações da época, incluindo a humilde comemoração natalícia do seu empregado, o que lhe permite perceber que, apesar de pobre, a família daquele é muito feliz e unida. No fim da viagem, o espírito revela sob o seu manto duas crianças de caras terríveis, a Ignorância e a Miséria, e pede que se tenha cuidado com elas. Depois disso vai-se embora, não deixando Scrooge indiferente aquilo que viu.

O terceiro espírito, o dos Natais Futuros, apresenta-se como uma figura alta envolta num traje negro que oculta o rosto, deixando entrever apenas uma mão. O espírito não diz nada, apenas aponta, mostrando a Scrooge a sua própria morte, solitária e sem amigos.

Após a visita dos três espíritos, Scrooge amanhece como um outro homem. Passa de novo a amar o Natal, e a ser generoso com os que precisam, e, sobretudo, a ajudar o seu empregado e tornando-se um segundo pai para o Pequeno Tim. Diz-se que ninguém celebrava o Natal com mais entusiasmo que ele.

 

O impacto do sucesso desta obra fez-se sentir logo após a morte do escritor quando, como se conta, uma menina que vendia flores às portas de um teatro de Londres ao saber da notícia, terá perguntado: “Morreu Dickens? E o Pai Natal, será que morreu também?” 

 

Mas muitas outras referências a este “Conto de Natal”, viriam a preencher o futuro das artes.

Talvez o mais conhecido personagem inspirado nesta obra seja o Tio Patinhas (em inglês: Uncle Scrooge), o avarento da Disney que, juntamente com o Rato Mickey, protagonizou o animado Mickey’s Christmas Carol (1983), baseado neste conto.

 

Mas as referências à história natalícia de Dickens não ficam por aqui. No filme Shrek, também é possível encontrá-las, quando na parte final, os personagens cantam juntos, e o bonequinho de gengibre diz, apoiado numa muleta: “Deus abençoe a todos”, numa clara repetição daquela que é uma fala do frágil Tim no romance.

Em 1988 é feita uma releitura do conto no filme “Os Fantasmas Contra Atacam”, protagonizado por Bill Muray e quatro anos depois foi a vez dos Marretas adaptarem a obra no filme “The Muppet Christmas Carol”. O filme “Barbie e a Canção de Natal”  traz-nos a versão feminina deste conto.

Em 2009, a Disney lança o filme em 3D, “Os Fantasmas de Scrooge”, com Jim Carrey no principal papel e, no dia 25 de Dezembro de 2010, foi para o ar um especial de Natal da série britânica Doctor Who, que levou precisamente o nome do conto de Natal de Charles Dickens.

No final de 2011 foi também esse o tema do filme da série Batman “Noel”, que mostra o Cavaleiro das Trevas como um amargurado e desesperado Scrooge, em que Catwoman aparece como o fantasma do passado, Superman como o fantasma do presente, e o Joker como o fantasma do futuro.

 

Desta forma se retrata a imortalidade da obra de Charles Dickens, aquele a quem, no passado, no presente e, quem sabe, no futuro, poderemos apelidar como o autor do Natal.

Boas festas, boas leituras, e até para a semana.

 

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De Adolfo Simões Muller a Vitorino Nemésio – mais textos dos meus programas na Radio Mais Oeste

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