De Adolfo Simões Muller a Vitorino Nemésio – mais textos dos meus programas na Radio Mais Oeste

03/01/2013 at 17:18 2 comentários

Bem vindos a este espaço sempre recheado de livros e leituras que nos fazem a melhor companhia.

Adolfo Simões Müller nasceu em Lisboa a 18 de Agosto de 1909, tendo falecido a 17 de Abril de 1989.

Frequentou a Faculdade de Medicina mas abandonou o curso, tendo-se dedicado inteiramente ao jornalismo e à escrita. Mas fê-lo de uma forma verdadeiramente épica e inovadora, o que a sua preenchida carreira aliás demonstra. Foi percursor de múltiplas iniciativas o que faz dele um homem a recordar no nosso programa.

Adolfo Simões Muller, que foi secretário da redacção do jornal católico ”Novidades”, destaca-se como fundador em 1935 do jornal infantil “O Papagaio”, revista de banda desenhada portuguesa de que foi director até 1941. Esta revista infantil, na qual colaboraram o pintor portuense Júlio Resende e o actor-desenhador, José Viana,  apresentava nas suas páginas o célebre Trolaró desenhado pelo sueco Jacobson. Foi a primeira revista portuguesa de Banda Desenhada e, também a primeira não francófona do mundo, a publicar o “As Aventuras de Tintin” do famoso Hergé, bem como a desvendar outros conhecidos heróis como “Astérix” e “Lucky Luck”.

Em 1941 e até 1951, Adolfo Simões Müller vai dirigir outra célebre publicação infantil:  “O Diabrete”, tendo ainda colaborado no sucessor deste – uma publicação chamada “O Cavaleiro andante”.

Em “ As leituras do Pedro blogspot.pt”, podem ler-se algumas memórias sobre estas publicações. Elegi esta:

“A primeira grande revolução na revista, que marcaria todo o seu percurso posterior, e que contribuiu decisivamente para a saudável rivalidade que alimentou com “O Mosquito” ao longo da sua existência, aconteceu logo no vigésimo número, quando Adolfo Simões Müller assumiu efectivamente a sua direcção e também grande parte da sua produção literária, a par de Maria Amélia Barça. Como era então habitual, o “Diabrete” incluiu separatas e construções de armar, organizou concursos e espectáculos e editou romances destacáveis e alguns mini-álbuns, entre os quais “O Dragão Teimoso”, de Walt Disney.”

De facto, os jornalinhos continham historias aos quadradinhos, sendo as da sua autoria as que ocupavam uma grande parte destas folhas semanais e tinham grande popularidade. Recordo-me de como o meu pai me contava que as crianças formavam filas em frente dos quiosques para  comprar, ler e trocar os seus exemplares… Infelizmente só nos alfarrabistas hoje se conseguem encontrar alguns números da sua vasta obra.

Adolfo Simões Müller foi ainda director do gabinete de estudos de programas da Emissora Nacional e produtor de programas para a rádio, tendo inclusivamente sido o autor do primeiro folhetim radiofónico: “ As Pupilas do Senhor Reitor” do escritor português Júlio Dinis sobre quem já aqui falámos num programa. Este género – o folhetim de rádio – foi um fenómeno durante anos, apenas comparável no sucesso às iniciais telenovelas que tanta audiência deram à televisão.

Quando tinha menos de 20 anos, estreou-se na literatura com o volume de poemas “Asas de Ícaro” em 1926.

No entanto, como se disse, foi na literatura infanto-juvenil que se celebrizou, tendo escrito obras como “A Caixinha de Brinquedos”  e “O Feiticeiro da Cabana Azul” ambos galardoado com o Prémio Nacional de Literatura Infantil. Continuando a publicar recebeu em 1982 o prémio Calouste Gulbenkien de Literatura para Crianças, pelo conjunto da sua obra, ex-aequo com o seu ilustrador, José de Lemos.

Para o público juvenil escreveu, entre outros, os livros constantes da colecção Gente Grande para Gente Pequena, onde, com as ilustrações do citado José de Lemos recria, sob a forma romanceada a biografia de grandes personalidades, como Madame Curie com A Pedra Mágica e a Princesinha Doente, Gago Coutinho com O Grande Almirante das Estrelas do Sul, Richard Wagner com O Piloto do Navio Fantasma, Florence Nightingale com A Lâmpada que Não se Apaga ou Camões com As Aventuras do Trinca-Fortes, entre muitas outras. Esta última, por exemplo, trata da biografia do poeta, estruturada em capítulos sobre as aventuras do nosso poeta ao longo da sua conturbada vida, tudo escrito numa linguagem despojada, mas rigorosa a que não falta ironia e humor.

Todas as publicações desta colecção, contêm um prefácio do autor, que é também um guia de leitura, como logo se entende pela epígrafe: O Livro que vão ler.

As ilustrações de Júlio Resende, a preto e branco, excepto na capa e na contra-capa, evidenciam a mestria do pintor.

Entre outras obras, Adolfo Simões Müller adaptou para a juventude Os Lusíadas (1980), A Peregrinação (1980), A Morgadinha dos Canaviais (1982) e As Pupilas do Senhor Reitor (1984), nomes grandes da literatura nacional, mas também outras de índole internacional: “ As Viagens de Gulliver “,e “Miguel Strogoff”, por exemplo.

A obra “Historiazinha de Portugal”, vinda a lume em 1944 foi um dos seus grandes êxitos, cujo objetivo era contar episódios da História de Portugal, de forma simples e clara, de maneira a exaltar o patriotismo dos jovens de então.

Adolfo Simões Müller foi um mestre inovador na prossecução de um dos objectivos mais nobres: despertar e cimentar no espírito das crianças e dos jovens a curiosidade por um dos maiores prazeres de sempre: ler.

Com alguma saudade dos meus tempos de menina em que esperava ansiosa pela chegada de mais um exemplar da colecção Gente Grande para Gente Pequena, aqui me despeço dos meus ouvintes até ao próximo programa.

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Olá, de novo!

Há escritores cujo nome ao seu proferido invoca todo um género de escrita. É o que acontece com a escritora de quem vamos falar hoje –Agatha Christie, que logo evoca a literatura policial.

Nasceu no dia 15 de Setembro de 1890 e faleceu a 12 de Janeiro de 1976. Foi autora de mais de oitenta livros, 19 peças de teatro e seis romances escritos sob o pseudónimo de Mary Westmacott, e os seus livros são os mais traduzidos de todo o planeta, superados apenas pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.

Conhecida como “Duquesa da Morte” ou “Rainha do Crime”, foi a criadora dos detectives Hercule Poirot, o famoso belga popularizado pelo uso das suas células cinzentas, de Miss Marple, a solteirona, que observando a natureza humana consegue solucionar os mais obscuros mistérios, de Tommy e Tuppence Beresford, o amoroso casal de detectives, entre outros.

Em 1912, conheceu o Coronel Archibald Christie, que, após um romance tempestuoso, viria a ser seu marido, já que casaram em 1914. Enquanto o marido esteve na Primeira Guerra Mundial, Agatha trabalhou num hospital e numa farmácia, funções que influenciariam o seu trabalho como romancista, pois muitos dos assassinatos dos seus livros são conseguidos com recurso ao uso de venenos, conhecimento que desenvolveu neste período.

Em 1926, ano do seu divórcio, um episódio muito estranho ocorre com Agatha: a autora desaparece por vários dias.

Já sabendo que o marido tinha outra mulher e tendo ele ido passar um fim-de-semana fora, Agatha abandonou a sua casa na noite de 3 de Dezembro e na manhã seguinte o seu carro foi encontrado junto a um lago com os faróis acesos. Dentro do carro, foram encontrados um casaco de pele e a sua mala. De imediato o desaparecimento da autora se tornou notícia e a polícia local tornou pública a oferta de £100 para quem tivesse qualquer informação sobre ela. Aviões, pela primeira vez usados numa busca semelhante em Inglaterra, mergulhadores e escuteiros – num total de 15.000 voluntários – procuraram Agatha.

A autora já estava desaparecida há 11 dias, quando a polícia soube que ela estava no Old Swan Hotel, em Harrogate. Agatha chegara de táxi no dia 4 de Dezembro trazendo consigo apenas uma mala e hospedara-se sob o nome de Teresa Neele (o mesmo sobrenome da amante de seu marido), dizendo ser da Cidade do Cabo. Curiosamente, aparece um anúncio no jornal Times dizendo que Teresa Neele andava à procura de parentes e amigos da África do Sul. A autora foi reconhecida no hotel por um músico que disse que se lhe dirigiu como “Mrs. Christie” e que esta, apesar de lhe responder, disse que estava amnésica.

Apesar das muitas versões existentes – da amnésia ao golpe publicitário para fazer crescer as vendas do seu livro mais recente, à vingança que quis infligir ao marido por causa da sua traição, o certo é que o que sucedeu a Agatha durante o tempo em que esteve desaparecida permanece um mistério, que, contrariamente aos dos seus livros, ela preferiu manter incógnito.

O primeiro livro de Agatha “O Misterioso Caso de Styles” foi publicado em 1920, vendendo cerca de 2.000 cópias. Em seguida vieram “O Inimigo Secreto”, “Crime no campo de golfe”, “ O homem do fato castanho”, “Poirot Investiga” e “O segredo de Chimneys”. Mas o grande sucesso veio em 1926 com a publicação de “O assassínio de Roger Ackroyd, que vendeu 5.000 cópias.

Em 1927 Agatha voltou a escrever, desta feita “Os quatro grandes”, protagonizado por Hercule Poirot. No outono desse mesmo ano, a convite de um célebre arqueólogo britânico, Agatha vai a Ur, no Médio Oriente, onde toma contacto com a arqueologia. É no ano seguinte quando Agatha volta a Ur, que conhece o jovem arqueólogo Max Mallowan  com quem se casou em 1930. A autora manteve seu nome como Agatha Christie porque assim estava celebrizada entre os seus leitores, mas na sua vida particular era chamada de Mrs. Mallowan. Com o marido, Agatha viajou por todo o mundo, fazendo escavações e aumentando os seus conhecimentos sobre arqueologia de que também se serviu na sua escrita. O casamento com Mallowan duraria até a morte da escritora.

Em 1934, Agatha alcança o auge de sua carreira, com um de seus livros mais famosos, “ Crime do Expresso Oriente”, adaptado para o cinema, teatro e TV em incontáveis ocasiões, sendo a mais famosa delas a versão de 1974 que ganhou um Óscar e três prêmios BAFTA.  Só no ano de lançamento do filme, o romance original vendeu 3 milhões de cópias.

O último livro protagonizado por Hercule Poirot, “Cai o pano” já escrito nos anos 40, foi publicado em Dezembro de 1975, porque Agatha já não se sentia disposta a continuar a escrever. A autora veio a falecer 2 meses depois.

Agatha Christie entrou para o Livro de Recordes do Guinness por ter escrito a peça teatral que há mais tempo está em cena: “A Ratoeira”, estreada a 25 de Novembro de 1952 e que continua em palco até hoje, passados que são 60 anos.

Outro recorde de Agatha, foi o de ter escrito o livro mais grosso do mundo, medindo mais de 30 cm de comprimento, possuindo 4.032 páginas, e contendo todos os 12 romances e 20 contos protagonizados por Miss Marple.

Agatha Christie, apesar de não gostar muito de falar em público, desvenda na sua Autobiografia muito sobre seu estilo de escrita e os seus gostos literários onde se incluem alguns clássicos ingleses, como seria de esperar.

 “A escrita é um grande conforto para pessoas como eu, que estão inseguros sobre si mesmos e têm dificuldade para expressar-se correctamente”, refere a autora, dizendo também assustar-se com o facto das pessoas não se preocuparem com as vítimas mas sim com os culpados, quando leem um romance policial.

Agatha Christie foi uma verdadeira pioneira ao fazer com que os desfechos de seus livros fossem extremamente impressionantes e inesperados, sendo praticamente impossível ao leitor descobrir quem é o assassino. Vai uma aposta? É de ler e chorar por mais!

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De volta a mais um espaço de livros, leituras e companhia, vamos hoje falar de quem teve, na sua época a coragem suficiente para dar um passo de gigante e querer ser reconhecida como escritora – Jane Austen. É dela que vamos falar.

Austen nasceu a 16 de Dezembro de 1775, e foi uma proeminente escritora inglesa.

Veio à luz no seio de uma extensa família, formada por oito irmãos, sendo Jane e sua irmã mais velha, Cassandra, as únicas mulheres. O reverendo Austen e a sua família pertenciam à burguesia agrária, e esse estatuto, bem como o ambiente que a rodeava, serviu de contexto para as suas obras, cujo tema mais recorrente gira em torno do casamento da protagonista. Contudo, a inocência das obras de Austen é apenas aparente, e em alguns meios académicos actuais, reconhece-se nas mesmas alguma aproximação ao pensamento de Mary Wollstonecraft, outra escritora britânica, considerada uma das pioneiras do moderno feminismo e as suas inevitáveis repercussões na educação da mulher.

Torna-se difícil precisar o momento em que Jane Austen começou a escrever. A existência de cadernos de notas contendo relatos assinala que o talento despertou em tenra idade, e aos 16 anos, parecia já dispôr de um bom número de exemplares armazenados.

Jane e sua irmã Cassandra foram enviadas para casa da Sra. Cawley, em Southampton, para aí prosseguirem a educação sob sua tutela, como era uso da época e, três anos mais tarde, ambas foram alunas de um internato em Reading, lugar que pode ter inspirado Jane para descrever o internato da Sra. Goddard, que aparece no romance “Emma”. A educação que Austen recebeu ali foi a única recebida fora do âmbito familiar. Por outro lado, sabe-se que o reverendo Austen tinha uma ampla biblioteca e, segundo ela mesma conta nas suas cartas, tanto ela quanto a sua família eram “ávidos leitores de romances, e não se envergonhavam disso”. Assim como lia romances de homens como Fielding, lia também obras femininas como as de Frances Burney, onde colheu o título de “Orgulho e Preconceito” retirado de uma frase dessa autora, no seu romance “Cecilia”.

Torna-se aqui necessário precisar que a época durante o qual Jane viveu, a chamada regência, no caso a de Jorge IV como Príncipe de Gales durante a enfermidade de seu pai, constitui um período de transição entre estilos: o georgiano e o vitoriano. Assim o pensamento de Jane Austen demonstra o seu interesse pelo ressurgimento do romance e defende-o como um gênero literário de qualidade, questão muito relevante, dado que a recém surgida imprensa tinha tornado possível a aquisição de livros pelas classes mais pobres fazendo subir o número de livros publicados o que veio incrementar o número de escritores profissionais, ou seja, um novo tipo de leitores propiciou um novo tipo de literatura.

Romances de qualidade e a educação, sobretudo a das mulheres, são pedras de toque na escrita de Jane Austen. As regras vigentes para a educação na época continham-se no célebre tratado “Emilio” de Rousseau, que tem suas bases no Iluminismo e onde se enuncia a tese de que todos os males se originavam na própria sociedade, sendo a única alternativa a transformação do homem através da educação – uma educação que o permitisse libertar-se da corrupção provocada pela própria sociedade. A influência do Iluminismo fez com que se começasse a criar um sistema educativo fundamentado na razão. Sem dúvida, que tanto para Rousseau, como para muitos outros pensadores do Iluminismo, a mulher estava excluída dessa necessidade educativa: a mulher devia ser educada para cumprir suas funções de esposa e mãe, e obedecer ao seu marido, ou seja, privilegiando os aspectos domésticos, a religião e os “talentos”. E é curioso notar que há muitas passagens nas obras de Jane Austen em que esta se refere aos “talentos”, mas, se há algo que todas essas obras têm em comum é que nenhuma de suas heroínas está muito interessada por eles…já que Jane Austen advoga uma educação liberal para a mulher, uma que a torne independente.

Entre 1795 e 1799, Jane começou a redigir as primeiras versões dos romances que se publicariam sob os nomes “Sensibilidade e Bom Senso”, “Orgulho e Preconceito” e “ A Abadia de Northanger”. Uma primeira tentativa de publicar “Orgulho e Preconceito” em 1797, levada a cabo pelo pai de Jane, foi recusada pelo editor.

Depois da morte do pai, Jane e Cassandra mudaram-se para uma localidade perto de Alton e uma vez instaladas, Jane retomou suas atividades literárias. Reviu “Sensibilidade e Bom Senso”, que foi aceite por um editor em 1810, apesar de, em bom rigor se tratar de uma edição da autora, que assumiu os riscos da publicação, saída a público sob pseudónimo. A publicação, contudo, teve êxito e, animada por ele, a autora tentou publicar também “Orgulho e Preconceito”, o que aconteceu em Janeiro de 1813. Ao mesmo tempo, começou a trabalhar noutra obra “Mansfield Park” e também por essa altura, a verdadeira identidade da autora começou a difundir-se, graças à popularidade da obra e à indiscrição da família. Nesse mesmo ano foi publicada a 2ª edição de suas obras, e em Maio de 1814, surgiu Mansfield Park, obra da qual se venderam todos os exemplares em seis meses, tendo Jane começado a trabalhar no romance “Emma”.

Era o seu irmão Henry, que vivia em Londres e em casa de quem Jane se alojava quando estava na cidade, que se encarregava de negociar com os editores. Ora acontece que o médico de Henry Austen era o mesmo do príncipe Regente, o qual, ao descobrir que Jane era a autora de “Orgulho e Preconceito” e “Sensibilidade e Bom Senso”, obras que apreciara muito, pediu ao médico que intercedesse junto de Henry para que a autora lhe dedicasse o seu romance seguinte, o que, de facto, viria a acontecer em Dezembro de 1815, com “Emma”.

Austen começou de imediato a escrever “Persuasion” mas teve, pouco tempo depois de abandonar a obra por causa do seu estado de saúde que, em 18 de Julho de 1817, a conduziria à morte, aos 41 anos de idade.

Jane Austen retratou com toques de ironia os costumes da sociedade que conheceu, utilizando essa arma para descrever as personagens dos seus romances, que são, sem dúvida dignos representantes de uma época e uma leitura bastante agradável que recomendo vivamente, despedindo-me até para a semana.

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José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, nascido em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901, e aí falecido a 22 de Dezembro de 1969 foi um escritor português que viveu grande parte da sua vida na cidade de Portalegre. Foi possivelmente o único escritor em língua portuguesa a dominar com igual mestria todos os géneros literários, sendo considerado um dos grandes criadores da moderna literatura portuguesa. Poeta, romancista, historiador, entre outras coisas, Régio chegou a ilustrar as suas próprias obras. Nesta reflectiu-se transversalmente a problemática relativa ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade.

Foi em Vila do Conde que José Régio viveu até acabar o quinto ano do liceu. Ainda jovem, publicou na sua terra-natal os primeiros poemas nos jornais “O Democrático” e “República”. Depois de uma breve e infeliz passagem por um internato do Porto, aos dezoito anos foi para Coimbra, onde se licenciou em Filologia Românica, com a tese “As Correntes e As Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa”. Esta tese na época não teve muito sucesso, uma vez que valorizava poetas quase desconhecidos na altura, como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro; mas, em 1941, foi publicada com o título “Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa”.

Em 1927, juntamente com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, fundou a revista “Presença” e iniciou um movimento que viria a marcar profundamente a literatura portuguesa no período anterior à guerra, constituindo uma espécie de 2º modernismo. A sua estreia literária data de 1925, altura em que publicou a sua obra mais conhecida “Poemas de Deus e do Diabo”. Além da poesia, dedicou-se ao teatro, ficção e crítica literária.

A sua obra explora quase obsessivamente as contradições do ser humano, oscilando dramaticamente entre, precisamente, “Deus e o Diabo” apreendendo poeticamente as contradições psicológicas do ser humano, permanentemente dividido entre o que em si há de melhor e pior.

Por detrás dessa atitude torna-se evidente o clima cultural da primeira metade do século, com a afirmação da ciência psicológica, inclusive a psicanálise, e a difusão de correntes literárias dessa raiz. Além desta influência, é possível detectar ainda alguma inspiração do modernismo e do saudosismo, bem como do Evangelho. As preocupações religiosas são outra constante da sua obra, afinal outra forma de afirmação da contradição humana. Mergulhado nesse conflito insolúvel, o homem aparece sempre como um ser inacabado, imperfeito, permanentemente dividido entre a carne e o espírito, entre o céu e a terra. Não encontramos nas palavras de Régio, nem o optimismo racionalista dos descrentes, nem a tranquilidade confiante dos crentes mas antes a procura do absoluto, melhor dizendo, da graça divina, única via para a superação dessas contradições profundas. O sentimento dessa divisão interior traduz-se numa elaboração poética de estrutura dramática, com o aparecimento de “personagens” íntimas, que dialogam e se confrontam, características que têm o seu desenvolvimentos máximo na ficção e no teatro de Régio. A peça “Benilde ou a Virgem-Mãe” que foi adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira, é disso exemplo.

Foi ainda nesse ano de 1927 que José Régio começou a leccionar Português e Francês primeiro num liceu no Porto e depois em Portalegre, onde esteve quase quarenta anos. Durante esse tempo, reuniu uma extensa e preciosa colecção de antiguidades e de arte sacra alentejanas que vendeu à Câmara Municipal de Portalegre, com a condição de esta comprar também o prédio da pensão onde vivia e de a transformar em casa-museu. Em 1966, Régio reformou-se e voltou para a sua casa natal em Vila do Conde, continuando a escrever. Fumador inveterado, veio a morrer em 1969, vítima de ataque cardíaco.

Em 1970 foi-lhe atribuído, a título póstumo, o Prémio Nacional de Poesia, pelo conjunto da sua obra poética.

Régio teve durante a sua vida uma participação activa na vida pública, mantendo-se fiel aos seus ideais socialistas, apesar do regime conservador de então, mas sem condescender igualmente com a arte panfletária. Hoje em dia as suas casas em Vila do Conde e em Portalegre são casas-museu.

 

Deixo-vos com uma amostra da excelente obra de José Régio, lendo-vos a última estrofe de um dos seus maiores poemas – Cântico Negro, declamado como ninguém para a eternidade pelo grande João Vilarett e na qual se explanam todas as preocupações que marcaram a vida e a obra de José Régio.

 

“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

– Sei que não vou por aí!”

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Bem vindos a mais este espaço em que os livros são reis.

Numa edição anterior falámos da literatura da Oceânia, nomeadamente da australiana que agora começa a despontar, pelo menos para nós, europeus. Ficou a promessa de voltarmos a falar daquela literatura, mais especificamente da literatura neozelandesa. Hoje vamos cumprir essa promessa.

Os Māori são o povo que os primeiros exploradores europeus encontraram quando chegaram às ilhas da Nova Zelândia. Ainda que se referissem às pessoas que lá encontraram como “aborígenes“, “nativos” ou “neozelandezes”,  maori  permaneceu como o termo usado pelo próprio povo para se descrever a si mesmo.  Este povo detinha uma relevante cultura pré-literária desde a idade da pedra, à base fundamentalmente da oralidade e da recitação de histórias e canções, em que exprimiam a sua sensibilidade sob a forma de poemas cantados os chamados “Māori waiata”. O facto dos primeiros povoadores que se fixaram na Nova Zelândia serem comerciantes e livres colonizadores, ao invés de degredados, marcou notáveis diferenças entre a literatura australiana e a neozelandesa. Os colonos reconheceram a presença dos Māori indígenas e também o lugar especial que eles ocupam na sua cultura. Embora a linguagem maori não fosse escrita, quando os missionários cristãos necessitaram de ajuda no seu trabalho evangélico, desenvolveram formas escritas de línguas polinésias para ultrapassar tal questão. Esta situação veio a ter particular importância para o aparecimento da literatura neo-zelandesa. A tradição oral de contar histórias, contudo,  sobreviveu e os primeiros missionários fizeram recolhas de contos populares. Sem obras literárias originais em língua Māori foram feitas traduções de obras, essencialmente de língua inglesa, o que permitiu que as mesmas se tornassem amplamente lidas. Assim, não sendo absolutamente correcto dizer que existe uma literatura maori, existe, de facto, uma literatura em inglês a lidar com temas maoris.

A partir de 1950, a literatura teve enorme desenvolvimento e dela hoje ressaltam nomes como Patricia Grace, Keri Hulme, Maurice Gee e a mundialmente conhecida autora infantil Margaret Mahy, que são proeminentes na Nova Zelândia, tendo ganho vários prémios.

Witi Ihimaera, reconhecido como um dos maiores autores maoris vivo escreveu a novela que se tornou o argumento do aclamado filme “A Encantadora de Baleias”. As suas obras lidam com a vida māori no mundo moderno, muitas vezes incorporando elementos fantásticos, oriundos da respectiva cultura.

Também a poesia se desenvolveu na Nova Zelândia como uma voz forte e local e rapidamente se tornou uma “polifonia” de vozes tradicionalmente marginalizadas.

A Nova Zelândia, para além dos seus escritores nativos, cativa ainda muitos dos que por ela passam, seja em esporádicas estadias ou mais longos exílios, levando a que, dessa forma, as literaturas mundiais, sempre com destaque para as europeias, se recheiem de intercorrências culturais oriundas daquele país. É o caso mais recente de Sarah Lark, uma guia turística de origem alemã e a residir em Espanha que acaba de lançar o segundo volume de uma saga inteiramente passada na Nova Zelândia, saga que se iniciou com “No País da Nuvem branca” a que se segue este “A canção dos Maori”. Embora não traduzidos em português ambas as obras se encontram disponíveis nas nossas livrarias numa belíssima tradução espanhola e vale muito a pena lê-la, desfrutando ao longo de uma escrita simples e eficaz da beleza e exotismo do povo e das paisagens, bem como para encontrar naquelas longínquas paragens os sentimentos mais fortes que caracterizam toda a raça humana. Vale a pena ter a companhia destes livros!

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Bem-vindos.

Este programa é dedicado a Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva que nasceu na cidade da Praia da Vitória, capital da Ilha Terceira, arquipélago dos Açores no dia 19 de Dezembro de 1901 e faleceu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978.

Vitorino Nemésio foi poeta, escritor e intelectual tendo-se destacado no romance como autor de “Mau Tempo no Canal” , livro trabalhado desde 1939 e publicado dez anos depois. A acção desta obra inesquecível decorre nas ilhas do Faial, Terceira, Pico e na ilha de São Jorge entre 1917 e 1919 e retrata a sociedade açoriana, mais concretamente, a sociedade estratificada da cidade da Horta, local onde decorre a intriga principal e onde Vitorino Nemésio se encontrava à época que retrata.

“Mau Tempo no Canal” conta uma quantidade de histórias numa só, é uma trama que enreda uma série de sucedidos e cujo ponto de apoio mais evidente é a relação entre dois personagens, entre duas famílias e entre dois estratos sociais. Literalmente pelo meio, está o canal do título, o braço de mar que divide as ilhas do Faial e do Pico, que divide os proprietários e novos-ricos da ilha da Horta, dos pobres, populares e simples baleeiros do Pico. É, digo eu, de leitura obrigatória.

O romance retrata bem o ambiente cosmopolita vivido na ilha da Horta no final da Primeira Guerra Mundial, época em que a ilha possuía um intenso comércio marítimo e uma impressionante animação nocturna, uma vez que se constituíu em porto de escala obrigatória, local de reabastecimento de frotas e de repouso da marinhagem.  Na Horta estavam instaladas as companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos, que convertiam a cidade num “nó de comunicações” mundiais.

O facto de em 1919 ter iniciado o serviço militar como voluntário na arma de Infantaria, proporcionou ao escritor a sua primeira viagem para fora do arquipélago. Concluiu o liceu em Coimbra, cidade onde se inscreve na Faculdade de Direito da respectiva Universidade. Três anos mais tarde, Nemésio trocou esse curso pelo de Ciências Histórico Filosóficas, da Faculdade de Letras também de Coimbra, e, em 1925, matriculou-se no curso de Filologia Românica.

Outra primeira viagem, desta feita para o estrangeiro, mais concretamente para Espanha, onde vai com o Orfeão Académico em 1923, proporciona-lhe conhecer Miguel Unamuno, escritor e filósofo espanhol, intelectual republicano e teórico do humanismo revolucionário antifranquista, com quem trocará correspondência anos mais tarde.

A partir de 1931 e até 1971, Nemésio exerceu a sua carreira académica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leccionou Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Mas teve outras passagens académicas, nomeadamente pela Universidade Livre de Bruxelas, e também pelo Brasil.

Foi autor e apresentador do programa televisivo “Se bem me lembro”, que muito contribuiu para popularizar a sua figura, tendo dirigido ainda o jornal “O Dia” entre Dezembro de 1975 e Outubro de 1976.

Foi um dos grandes escritores portugueses do século XX, tendo recebido em 1965, o Prémio Nacional da Literatura e, em 1974, o Prémio Montaigne.

Faleceu a 20 de Fevereiro de 1978, em Lisboa, tendo sido sepultado em Coimbra, a seu pedido. Pouco antes de morrer, pediu também ao filho para que, nessa ocasião, os sinos tocassem o Aleluia em vez do dobre a finados. O seu pedido foi respeitado.

Vitorino Nemésio, aliando o seu acentuado sotaque açoriano e a sua prodigiosa forma de comunicar à enorme capacidade que a televisão tem de transportar as pessoas que aparecem no écran para dentro das nossas vidas, tornou-se para muitos portugueses, uma “figura lá de casa”, nos domingos ao final da tarde, inesquecível para quem alguma vez viu o programa, que, espera-se faça parte do acervo histórico da RTP, de modo a poder ser visto pelas gerações que não tiveram ainda esse privilégio e revisitado por aqueles que dele “bem se lembram”.

Até para a semana.

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Meus programas de radio…continuação E continuando…

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