Tertúlia acerca do meu último livro

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20/06/2013 at 11:12 Deixe um comentário

Caros amigos e seguidores: no passado dia 24 de Maio, lancei mais um  livro, o meu primeiro romance “O Passar dos Dias”. Foi mais um momento lindo, rodeada de família e amigos que se mostraram presentes nesta ocasião. A apresentação esteve a cargo de um amigo, Dr. José Viegas Soares, que fez o favor de me enviar o texto dessa mesma apresentação e que aqui deixo publicado para recordação de uns e conhecimento de outros. A todos , bem hajam!

O Passar dos dias

Numa pequena biografia que a Mª João me facultou, lê-se “Em 2012 também, terminei “O Passar dos Dias”, o meu primeiro romance. Trata-se de uma história simples, de personagens que me deram prazer criar e contada no passar dos dias que é, afinal, a vida…”

Modéstia da Mª João porque o seu livro tem como tema central a homossexualidade masculina e a sua aceitação pela família.

Problema presente nos dias de hoje com contornos bem diferentes, dos que já teve ao longo dos anos e das civilizações e culturas que têm povoado o planeta. Desde a aceitação de Gregos e Romanos até à total rejeição o tema é sempre um tema sensível quer social quer familiarmente.

Vão longe os tempos em que, neste Portugal a homossexualidade masculina era considerada crime e punida com o desterro para as colónias mais tarde chamadas províncias ultramarinas. Claro que esta punição dependia do punido e do seu estatuto social, o peso e influência da família na sociedade portuguesa e muito especialmente nas relações da família ou do seu chefe com o regime.

Mas nos dias de hoje a aceitação dessa orientação sexual ainda não é pacífica no seio das famílias ainda que a legislação o permita e legalize.

Mª João situa este problema numa época mais ou menos circundante ao 25 de Abril de 74. Sem grandes preocupações cronológicas o problema surgirá pelo meio o livro, mais concretamente pelos capítulos 18 e 19.

Mas para além deste tema central poderemos ainda considerar os Amores Desencontrados de Mª Inês e de Mª Cláudia, de Duarte, de David, de Sebastião. E estes desencontros vão entroncar-se na aceitação /rejeição da homossexualidade masculina.

A presença dominante de uma mãe solteira, a protagonista, Mª Inês, vitima desta trama homossexualidade masculina/amores desencontrados, não é um problema sentido é, antes pelo contrário, um momento de felicidade.

Toda esta trama pode ser olhada segundo alguns eixos que a análise paramétrica do Professor António José Saraiva, nos dá de modo a enquadrar o romance “O passar dos Dias”.

Olhando a história que Mª João nos conta Começamos no primeiro capitulo com o domínio do Thanatos polo do eixo Eros-Thanatos, Eros (força vital, alegria , vida) Thanatos (morte, escuridão tristeza, etc). A morte de Duarte irmão mais velho da protagonista leva-a a um isolamento na casa da praia em tempo (também ele thanatos . chuva, vento, frio) de inverno onde chora esse irmão muito querido. Diz Mª João pela voz da protagonista Mª Inês “E o ar carregado de tempestades é como o pensamento carregado de maus presságios, as cartas deitadas em cima da mesa, a morte à espreita numa armadilha fatal e segura” e mais adiante neste momento negro de Thanatos “ A morte de um filho, ainda para mais quando é desejada pela próprio, deve ser um rude golpe”..”Adorava o Duarte e ele faltar-me-à toda a vida”

Mas logo no 2º capitulo surge Sebastião amigo de infância e muito mais do que amigo como a seguir se verá e passamos do domínio do Thanatos para o de Eros Diz Mª Inês“ Enfeitiçou-me ou eu deixei que o seu encanto fizesse a suposta obra” mas Sebastião vai-se embora e de novo voltamos ao polo negativo ainda que por pouco tempo uma vez se vai atingir um climax no capitulo 3 quando Mª Inês sabe que está gravida de um filho de Sebastião que entretanto partiu em busca de alguma coisa que nem ele sabe o quê, talvez mais uma fuga do que uma partida para um qualquer fim.

Feliz por essa filha diz ela “ Ia ter um bébé…O pai só podia ser Sebastião, há anos que não tinha sexo com outro homem. Sorri interiormente, feliz com a ideia, acarinhando-a ainda sem pensar em consequências” (Eros) triste (Thanatos) por o pai não estar perto dela.

Vamos encontrar esta oposição ao longo de todo o livro, não só em toda a diegese, como capítulo a capítulo.

Mas, e voltaremos a esta oposição, não queríamos deixar de referir a existência ainda que com menos intensidade de outros eixos que também estruturam a trama romanesca.

Dentro- Fora é outro dos eixos visíveis. Na realidade começamos com a família de Mª Inês O pai Rodrigo oficial do exército, duro e seco, mas por quem ela tem muito carinho, a mãe, Madalena mulher submissa por muito amor a Rodrigo, As avós, materna, Salomé onde o Eros vai vencer depois da morte do marido levando-a à vida no mar que tanto ambicionou e a avó Bernarda mulher forte quase camponesa. O irmão Duarte figura central da narrativa onde tudo começa, a tia Zita irmã do avô Germano, o marido da avó Salomé, figura de mulher doce, suave discreta, mas de importância para a vida de Mª Inês como ela refere” colei fotografias da tia Zita desde a jovenzinha que fora, no tempo de Salomé, até se transformar na presença que para sempre me ficou na memória, com a sua blusa de seda e o seu eterno odor a lavanda, a sua pele clara e fininha, os seus cabelos brancosa que lhe emolduravam o rosto” que se passeia pelo romance deixando no ar o seu eterno cheiro a lavanda mesmo quando esse cheiro só é sentido por Mª Inês. Mas á medida que a história vai avançando há um Fora que se vai gradualmente transformando em Dentro. O nascimento de Mª José vem trazer para o polo Dentro os familiares do pai, amigos de infância de Mª Inês mas que em consequência do nascimento da Zé passam a integrar a família ou melhor dizendo as duas famílias. Com a passagem de Mª Cláudia e Amélia respectivamente Irmã e Mãe de Sebastião. para o polo Dentro fica ao longo do romance no eixo dentro-fora apenas no polo Fora o grande ausente, o pai da Zé a paixão de Mª Inês, Sebastião. Mas este polo acabará por ficar vazio, mas isso sabe-lo-à que ler o romance.

Poderíamos ainda considerar neste eixo a existência de Pedro, antigo colega, primeiro amor dos tempos de escola, mas que surge e desaparece muito rapidamente sem nunca deixar o polo Fora do eixo Dentro-Fora. É como que um ligeiro soprar de vento que de imediato se esvai.

Um último eixo que poderemos considerar é o eixo Situação-Tempo, ou seja uma determinada realidade (a situação) e a importância que essa mesma realidade tem (aqui na trama da história) o Tempo. Olhando a narrativa de Mª João vemos a morte de Duarte e a sua dominância ao longo do desenrolar dos acontecimentos que nos vão sendo narrados.

É a morte de Duarte e o desconhecimento das razões dessa morte que servem de agregador de toda a história. Porquê o suicídio, porquê o silencio que toda a gente mantem sobre esta morte silêncio que como em dada altura Mª Inês pensa detectar só existe para ela dado que Mª Cláudia, Amélia e não só sabem a verdade.

Quando Inês protesta Mª Cláudia diz-lhe que a única coisa que todos queriam era poupa-la a esse desgosto.

Diz Inês

“ Aquela revelação, a juntar às restantes, acabou comigo. Então era isso. Era esse o segredo de ambos, do Duarte. E eu? Apeteceu-me gritar, gritar tanto que calasse as vozes que falavam dentro de mim, gritar até silenciar as vozes do meu pai, do meu irmão, da Mª Cláudia.”

Um outro aspecto ainda a considerar na estrutura da narrativa, o universo feminino que domina em todo o livro, facto que de resto autora vai referindo com regularidade e que atinge o seu expoente máximo no capitulo 32. Oiçamos Mª Inês“ à mesa, olho à minha volta para ver aqueles rostos femininos, todos diferentes mas todos bonitos. Penso mais uma vez como a minha família tem crescido nesse universo de mulheres e em como é coeso e forte (o polo Dentro da oposição Dentro-Fora)

Terminaria voltando ao eixo Eros-Thanatos onde o domínio de Eros se acentua nos ultimo capítulos, isto é depois de toda uma narrativa onde problemas actuais são abordados com a crueza que os mesmos contêm em si próprios, ou seja sob o domínio de Thanatos terminamos com uma lufada de ar fresco, um sol radioso Eros na sua plenitude como força vital, criadora e quase sentimos a tia Zita passando atrás da família já em pose para o retrato final deixando no ar aquele cheiro a lavanda que tão bem a caracterizava.

07/06/2013 at 12:11 Deixe um comentário

Caros amigos,

No próximo dia 24 de Maio, vou lançar mais um livro – será o 1º romance! Deixo aqui o convite, esperando ter-vos presentes em mais este momento especial!!!

convite_OPDD

14/05/2013 at 14:14 Deixe um comentário

E continuando…

Hoje vou postar uma outra série dos textos dos meus programas, e viajaremos desde Heródoto ao Natal de Dickens! De salientar que estes programas podem ser ouvidos na Mais Oeste em 94.2 FM , todas as 6ªs-feiras, com repetições nos seguintes horários: 08:55, 11:55, 14:55, 17:55, 21:55, 1:55 e 4:55. 

Então, cá fica:

Bem vindos de novo a este espaço onde falamos de livros e de leituras. E falar de livros é falar de histórias, da ficção criada para nosso encantamento. Mas por vezes, é na própria realidade que se encontra a melhor ficção. Ou seja, a partir do mundo que nos rodeia, construímos histórias, que, por vezes o são da própria História, com H maiúsculo – se é que ainda me é permitido usar tal letra…

O primeiro autor com um interesse indesmentível nesta matéria das histórias que a História dos homens e do mundo têm, parece ser incontestavelmente Hérodoto.

Hérodoto viveu entre 485 e 425 a.C. Nasceu em Halicanarsso, que hoje é Bodrum, na Turquia e foi criado pelo seu tio Pamiatis que lhe ofereceu não só uma boa educação, como também muitas viagens pelo mundo antigo. A primeira que fez foi ao Egipto mas, mais tarde, veio a percorrer a Líbia, a Babilônia, a Pérsia, a Macedônia entre outras.

Ficou conhecido como o “pai da História”, pois a ela dedicou toda a sua vida. Antes de Heródoto, já existiam crónicas e textos épicos, e também estes haviam preservado o conhecimento do passado. Mas Heródoto foi o primeiro não só a gravar o passado mas também a considerá-lo um problema filosófico e a encará-lo como um projecto de pesquisa destinado a revelar um maior conhecimento sobre o comportamento humano. O método que desenvolveu e a palavra que utilizou para o caracterizar, “historie”, que previamente tinha significado simplesmente “pesquisa”, tomou a conotação actual de “história”.

A sua principal obra, escrita provavelmente entre 450 e 430 a.C., foi por essa razão baptizada exactamente de “Histórias” encontrando-se dividida em 9 livros dedicados a cada uma das nove musas, que segundo os eruditos alexandrinos, eram responsáveis pela arte, Clio, Euterpe, Tália, Melpiomene, Terpsicore, Erato, Polímnia, Urânia e Caliope.

Os cinco primeiros livros debruçam-se sobre o Império Persa, já os outros quatros consubstanciam relatos sobre as guerras, com destaque para as Guerras Médicas, entre gregos e persas, para a história de Esparta e Atenas, a destruição desta e a Batalha de Salamina, que foi o combate entre a frota persa e a grega, tendo esta saído vencedora.

 

De salientar o livro II, onde o autor faz uma descrição pormenorizada do Egito, escrevendo sobre a sua história, a geografia do país, sobre religião, reis, animais sagrados e costumes;

Além dos nove livros Hérodoto escreveu aquilo que se chama de um encerramento, onde o final das Histórias é problemático. A questão fundamental é se a obra está inacabada ou se Heródoto chegou até ao final cronológico que, em sua opinião, poria fim à guerra. Isto até porque, além disso, há promessas inconclusivas na narrativa (como onde diz que falará dos assírios), que se poderão também debitar à falta de uma última revisão.

Segundo consta, Heródoto fez leituras públicas de sua obra em Atenas, por volta do ano de 445 a.C. tornando-se um “logios” – isto é, um recitador de prosa ou histórias. Heródoto terá feito roteiros através das cidades gregas e dos maiores festivais atléticos e religiosos, onde dava espectáculos pelos quais recebia um pagamento. Em 431a.C.,a guerra do Peloponeso rebentou entre Atenas e Esparta. Poderá ter sido esse conflito- que dividiu o mundo grego- que o inspirou a reunir todos esses relatos numa narrativa contínua –  as suas “Histórias”.

Esta obra foi frequentemente acusada no velho mundo de influenciável, imprecisa e plagiária. Ataques semelhantes foram preconizados por alguns pensadores modernos, que defendem que Heródoto exagerou na extensão das suas viagens e nas fontes criadas. Contudo, o respeito pelo seu rigor tem aumentado na última metade do século, sendo actualmente reconhecido não apenas como pioneiro na história, mas também na etnografia e antropologia.

Vale a pena ressaltar ainda a sua contribuição para os estudos geográficos, e, por esse feito, a revista de geografia geopolítica de maior tiragem em França leva seu nome.

No que diz respeito à vida pessoal de Heródoto, sabe-se que foi defensor daquilo que hoje conhecemos como democracia, tendo sido exilado de Halicarnasso, após um golpe de estado frustrado em que estava envolvido contra a dinastia no poder, retirando-se para a ilha de Samos. Parece nunca ter regressado a Halicarnasso, embora nalguns relatos das “Histórias” pareça sentir orgulho de sua cidade natal e da respectiva rainhaArtemísia I de Cária.

Deve ter sido durante o exílio que empreendeu as viagens que descreve em  “Histórias”. Estas viagens conduziram-no ao Egipto, à Ucrânia, a Itália e à Sicília. Heródoto refere-se ainda a uma conversa tida com um informador em Esparta, e muito certamente terá vivido durante um determinado período em Atenas. Nesta, registou as tradições orais das famílias mais proeminentes, como a de Péricles, por exemplo. Mas os Atenienses não aceitavam os estrangeiros como cidadãos, e quando Atenas apoiou a colónia de Thurii na aniquilação de Itália em 444 a.C., Heródoto ter-se-á tornado um colono. Desconhece-se se lá morreu ou não.

Longe de serem enfadonhos livros de estudo, as “Histórias” de  Heródoto são um passeio pelo passado, uma agradável visita guiada pela mão de um bom comunicador, sobretudo, de um homem de uma cultura além da média. Boa semana para todos!

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Mais uma vez, sejam bem-vindos à nossa rubrica habitual.

José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa do Varzim em 25 de Novembro de 1845. Curiosa e escandalosamente para aquela época, foi registado como filho de José Maria d`Almeida de Teixeira de Queirós e de mãe ilegítima, dado o seu nascimento ter sido fruto de uma relação ilegítima entre D. Carolina Augusta Pereira de Eça e do então delegado da comarca, tendo sua mãe fugido de casa para que a criança nascesse afastada do escândalo da ilegitimidade.

 

Por esta razão, o pequeno Eça foi levado para casa de sua madrinha, em Vila do Conde, onde permaneceu até aos quatro anos. Em 1849, depois dos pais terem contraído matrimónio, Eça foi então levado para casa dos seus avós paternos, em Aveiro, onde permaneceu até aos dez anos. Só nessa época se juntou aos seus pais, vivendo com eles no Porto, onde efectuou os estudos secundários.

 

Em 1861, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e logo se junta ao famoso grupo académico da Escola de Coimbra que, em 1865, se insurgiu contra o grupo de escritores de Lisboa, a apelidada Escola do Elogio Mútuo.

 

Esta revolta dos estudantes de Coimbra é considerada como a semente do realismo em Portugal, que no entanto já tinha sido iniciada, tendo à cabeça Antero de Quental e também Teófilo Braga contra António Feliciano de Castilho, como já referimos em anterior programa.

É aliás por influência deste companheiro e amigo – Antero de Quental – que Eça se entrega ao estudo de Proudhon, vindo a aderir ao grupo do Cenáculo. Assim, em 1870, tomou parte activa nas Conferências do Casino, essas sim, marcas definitivas do início do período realista em Portugal, onde Eça de Queiroz profere em conferência o tema “O Realismo Como Nova Expressão de Arte”, no Casino de Lisboa, em 1871.

Também por essa época inicia a colaboração com Ramalho Ortigão, em “As Farpas”.

Eça de Queiroz que, entretanto, terminara o curso em 1866, fixa-se em Lisboa, exercendo simultaneamente advocacia e jornalismo. Dirigiu o Distrito de Évora e participou na Gazeta de Portugal com folhetins dominicais, que seriam, mais tarde, editados em volumes com o título “Prosas Bárbaras”.

Mas a alma do escritor era irrequieta, pelo que, em 1869 decidiu assistir à inauguração do Canal do Suez, e assim viajou pela Palestina onde recolheu informação que usou na sua criação literária, nomeadamente nas obras O Egipto e A Relíquia.

Decidiu entrar para o Serviço Diplomático e foi Administrador do Concelho em Leiria, cidade em que escreveu “O Crime do Padre Amaro”, o seu primeiro grande trabalho e marco inicial do Realismo em Portugal. Foi considerado o melhor romance realista português do século XIX, e Eça o único romancista português que conquistou fama internacional nessa época.

Foi duramente apontado pelas suas críticas ao clero e à própria pátria, críticas a que voltaria por ocasião de outras obras como adiante veremos.

Mercê da sua carreira diplomática, em 1873 é nomeado Cônsul em Havana, e dois anos mais tarde, foi transferido para Inglaterra, onde residiu até 1878. A estadia nas terras britânicas inspiraram-no para começar a escrever “O Primo Basílio”, “O Mandarim” e “A Relíquia”, e começar também a arquitectar “Os Maias”, a sua obra de fôlego.

Tal como no “Padre Amaro”, em que denuncia a corrupção do clero,  nestas três obras, Eça desmascara a hipocrisia dos valores burgueses, numa crítica social que se une à análise psicológica mais notória. É com essa fineza na escolha das palavras, como uma faca bem afiada, que Eça descasca vários preconceitos e põe a nu as almas das gentes que, com facilidade, se reconhecem nas suas páginas. Em 1885, para sua grande felicidade, visita em Paris, o escritor francês Émile Zola, ele próprio uma referência literária de um novo movimento literário, oriundo da análise científica e experimental do ser humano: o naturalismo, que se propõe a essa análise do ser humano, da moral e da sociedade.

Também Zola escrevera “O Crime do Padre Mouret”, que, muitos injustamente espalham que Eça plagiou. Nada disso, contudo. Ainda que as críticas de fundo tenham um destinatário semelhante, o clero, o romance queirosiano capta de tal forma a alma lusa e a sociedade daquela época com tal eficácia, que dificilmente se pode denunciar como plágio.

Em 1886, casou, também de forma “sui generis”, já que tinha 40 anos e a noiva apenas 29.

Dois anos depois recebe com alegria a notícia da sua transferência e colocação no consulado de Paris. É na cidade das Luzes que termina e publica “Os Maias” e “A Ilustre Casa de Ramires”. Data também dessa ocasião a “Correspondência de Fradique Mendes” que vem a lume na imprensa, para onde, nos últimos anos foi escrevendo fundando e dirigindo a “Revista de Portugal”.

Sempre que viajava até a Portugal, reunia em jantares com o grupo dos Vencidos da Vida, os acérrimos defensores do Realismo, assim chamados por terem sentido falhar todos os seus propósitos.

Eça de Queirós o fotógrafo literário da sociedade da sua época, morreu em Paris a 16 de Agosto de 1900.

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GRAHAM GREENE

Henry Graham Greene nasceu em Berkhamsted a 2 de Outubro de 1904 e faleceu em Vevey a 3 de abril de 1991. Mais conhecido como Graham Greene, foi um escritor inglês, que deixou uma obra composta de romances, contos, peças teatrais e críticas literárias e de cinema. Formou-se na Universidade de Oxford, e começou a sua carreira como jornalista, trabalhando como repórter e subeditor do célebre “Times”. Publicou cerca de 60 romances.

Durante a Segunda Guerra Mundial, de 1941 a 1943, trabalhou para o governo inglês no departamento de relações externas, dirigindo um escritório em Freetown, Serra Leoa. Muitos de seus romances, a partir de então, tiveram como tema ou pano de fundo a espionagem, vindo alguns deles a ser adaptadas ao cinema.

O seu primeiro livro de sucesso foi “O Expresso do Oriente” publicado em 1932.

Muitas outras obras de cariz político – em que se fala de Cuba ou de um ainda distante Chile –  se lhe seguiriam, com destaque para “O nosso homem em Havana” e “O Terceiro Homem”, cuja acção se situa em Viena de Áustria, após a Segunda Guerra Mundial, uma cidade dividida e gerida pelas quatro potências aliadas.  Um romancista de segunda linha, chega à cidade para visitar um seu amigo de longa data. Logo descobre que aquele morreu, e em circunstâncias muito suspeitas. Enquanto se faz passar por um célebre escritor, dá início uma investigação por conta própria e procura resposta para a pergunta – o que é que o seu amigo fez para merecer a morte?

Este romance foi escrito em 1949 como argumento para um filme realizado e interpretado por Orson Welles, e é uma das mais importantes narrativas breves de Graham Greene, em que o autor se debruçou sobre os meandros do mundo da espionagem e da Guerra Fria.

Podemos dizer que duas temáticas fundamentais percorrem a sua obra transversalmente: a política, pelas razões já expostas, e a religião.

Convertido ao catolicismo em 1926, GG deparou-se com os inúmeros dilemas morais e espirituais que marcaram a sua época. Foi através dos seus personagens –  e que personagens formidáveis! – que GG os expôs de forma por vezes contundente  mas sempre corajosa e frontal. Em “O nó do problema”, por exemplo, apresenta-nos Scobie, um escrupuloso subcomissário da polícia, que vive há 15 anos numa colónia inglesa da África Ocidental, onde tem uma existência parda de casos que nunca se destrinçam e doses diárias de álcool. Ademais, um casamento falhado com uma mulher a quem ama por piedade, sentido de responsabilidade, hábito ou o que quer que seja que leva dois seres humanos a partilharem uma vida sem o menor vestígio de intensidade. Estas as circunstâncias em que Scobie encontra uma outra mulher, também digna da seu compaixão, com a qual se envolve numa situação altamente irregular para um católico praticante. Pelo meio, soçobra num momento de fraqueza ou de inconsciência, conseguindo pôr todos os que o rodeiam a desconfiar da sua integridade, dado não ter levado em consideração a importância que para um polícia tem a aparência da honestidade, não lhe bastando sê-lo. Scobie, cumpridor e honrado, deixa-se fazer refém de mentiras que tiveram um infeliz desfecho num homicídio e envolve-se num adultério de que não se arrependeu, o que o impossibilita de comungar. A sua vida torna-se-lhe insustentável e um estranho sentimento de culpa apossa-se dele.

Dividido entre duas mulheres, entre a compaixão e a fidelidade, dilacerado entre a sua consciência pecadora e o seu Deus,ele não consegue ultrapassar asa situações. Ele, que, no seu íntimo sente repugnância em causar pena seja a quem for, faz sofrer a todos. Por isso prefere desaparecer. Mata-se, sabendo que a morte implica a condenação eterna. Diz GG, “Scobie vive perseguido por um estranho sentimento de culpa que sempre sentiu como se fosse responsável por qualquer coisa futura impossível de prever”.

Para se resolver um problema, tem de encontrar-se o nó e depois tem de desatar-se o nó. Scobie não encontrou o nó certo ou não soube desatá-lo.

Este o dilema e desfecho moral do personagem, para o qual a sua própria trajectória religiosa se sobrepõe a toda a realidade que o rodeia, pois o fundamental é esse mesmo nó, desvanecendo-se todo o ambiente em que o romance se situa, em plena segunda guerra mundial, numa África onde os movimentos independentistas ganhavam força.

O mesmo sucede em “O Poder e a Glória”, o romance mais lido no século XX, em língua inglesa, fruto de uma viagem que Graham Greene fez às terras de Tabasco, e no qual dá a conhecer a perseguição religiosa que teve lugar nos anos vinte no México.

O livro descreve, mais do que os locais onde decorre, as peripécias e os dramas do único sacerdote católico que continua a exercer, clandestinamente, o seu ministério. Perseguido pela polícia, carrega consigo as cicatrizes da vida e do tempo: não era nem herói nem santo, vivia como fugitivo, cheio de medos, com a consciência de ser um pecador e o remorso de ter uma filha…

GG escreve um romance comovente em que, para este padre perseguido e fraco, a fé é uma certeza que não se deixa determinar pelas misérias.

 

Partilho, contudo, da opinião de outro escritor, William Faulkner, acerca de “O Fim da Aventura “, um romance de 1951 de GG. – “Para mim  – diz Faulkner – é um dos mais verdadeiros e comovedores romances do meu tempo, em qualquer língua.”

Esta opinião, vinda de quem vem, compele qualquer leitor a devorar o livro. Posso afirmar que já o li e reli uma quantidade muito generosa de vezes, sempre de um fôlego.

A ideia inicial do livro é bem simples, porém, peculiar: o eterno triângulo amoroso, que se distorce quando um quarto personagem invade a acção: Deus. Podíamos sintetizar da seguinte forma: Henry ama Sarah, com quem é casado. Esta não o ama. Ama Maurice. Henry, sentindo-se traído pela mulher, decide contratar um detective para vigiar Sarah, confidenciando esta intenção a Maurice, de quem, entretanto, se tornara amigo. Henry acaba por recuar na intenção, mas Maurice, que também sente o amargo travo do ciúme de Sarah,  avança com a contratação do detective. E aí temos: um marido e um amante unidos na procura de um terceiro rival. E é esta situação, estanha que nos conduz a um caminho inesperado, à busca do sentido do amor, a quatro destinos marcados pela paixão. Mais ainda: a vida de Sarah, percebida aos poucos, revela os eternos dilemas do ser humano: a natureza das paixões, os caminhos, por vezes, absurdos, da felicidade e a natureza do sagrado a interferir constantemente nos destinos. De novo, este é um dos  aspectos mais perturbadores do romance: o sagrado e a sua influência nas nossas vidas.

Sempre que lhe pego, tenho a vívida esperança que, desta vez, o enredo termine de forma diferente para os personagens, mas o final mantem-se perturbador e encantador. Apesar disso, é um dos livros da minha vida, daqueles que levaria comigo para uma ilha deserta, e a cujo apelo nunca resisto Também foi adaptado ao cinema, mas, embora o filme siga o argumento muito de perto, não consegue imprimir no espectador a mesma intensidade e a surpresa que apanham o leitor desprevenido.

Outra característica contrastante que GG desenvolveu na sua escrita foi o humor. “O nosso Agente em Havana” é disso exemplo. O romance é, em grande parte, uma espécie de paródia à euforia quase histérica da espionagem internacional nos tempos da guerra fria. O agente secreto personagem principal desta história, Mr. Wormold, não passa de uma caricatura do espião, mas não deixa de ser um simpático personagem ao mesmo tempo credível e risível, com um toque de ridículo.

Também assim em “Monsenhor Quixote”, onde o autor faz uma recriação da célebre obra de Cervantes – D. Quixote de la Mancha.

Padre Quixote, um paroquial da pequena cidade de El Toboso, na região espanhola de La Mancha, acredita ser um longínquo descendente do personagem de mesmo nome criado por Cervantes e tenta aproximar a sua vida da dele, mesmo que as pessoas insistam em fazer-lhe ver que Dom Quixote é apenas um personagem fictício. Assim, baptiza o seu Seat 600 de “Rocinante”, tal como o cavalo do seu homónimo, e a santa da sua devoção vira uma Dulcineia. O prior, que levava uma existência simples e tranquila, à conversa com o prefeito comunista da aldeia, a ouvir as críticas do bispo e a discutir com Teresa, a sua velha empregada ajuda, um dia, um aflito bispo italiano cujo carro se avaria na estrada, recebendo, semanas depois, o título de monsenhor das mãos do próprio Papa. A partir daí a sua vida toma um outro e inesperado rumo, com diversas aventuras e situações pouco comuns a um padre. Apesar das várias cenas cómicas, que nos arrancam francas gargalhadas, o livro não deixa de fora temas como a discussão da vida numa Espanha pós-ditadura, o comunismo, e, sempre, a  católica.

 

Aconselho, assim, a que não deixem de ler este britânico, este homem que, além de brilhante contador de histórias, tem a rara capacidade nos deixar a pensar no sentido da vida.

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FERNANDO PESSOA

Na semana que passou, mais precisamente no dia 30 de Novembro, transcorreu mais um aniversário da morte daquele que foi, sem dúvida, um dos maiores poetas portugueses de sempre Fernando António Nogueira Pessoa, vulgo Fernando Pessoa, que nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1888 e aí faleceu a 30 de novembro de 1935.

Além de poeta, foi filósofo e escritor, tendo a sua obra sido considerada pelo crítico literário Harold Bloom um “legado da língua portuguesa ao mundo”.

Por ter sido educado na África do Sul, para onde foi aos seis anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu perfeitamente o inglês, língua em que escreveu poesia e prosa desde a adolescência. Fernando Pessoa traduziu também várias obras inglesas para português e obras portuguesas (nomeadamente de António Botto e Almada Negreiros) para inglês.

Ao longo da vida trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como correspondente de língua inglesa e francesa. Foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária em verso e em prosa. Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um “drama em gente”.

Iniciou a sua atividade de ensaísta e crítico literário com o artigo «A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada», a que se seguiriam «Reincidindo…» e «A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico» publicados em 1912 pela revista “A Águia”. Frequenta a tertúlia literária que se formou, no Café A Brasileira, no Largo do Chiado em Lisboa, embora mais tarde, já nos anos vinte, o seu café preferido venha a ser o Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, onde escrevia e se encontrava com amigos e escritores.

Em 1915 participou na revista literária “Orpheu”, a qual lançou o movimento modernista em Portugal, causando algum escândalo e muita controvérsia. Esta revista publicou apenas dois números, nos quais Pessoa publicou em seu nome, bem como com o heterónimo  de Álvaro de Campos. No segundo número da Orpheu, Pessoa assume a direcção da revista, juntamente com Mário de Sá-Carneiro.

Em Outubro de 1924, juntamente com o artista plástico Ruy Vaz, Fernando Pessoa lançou a revista “Athena”, na qual fixou o «drama em gente» dos seus heterónimos, publicando poesias de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, bem como do ortónimo Fernando Pessoa.

 

Como escreve sob a voz de Alberto Caeiro, em “Poemas Inconjuntos”, 1913-1915, publicados precisamente na “Athena” em 1925, 

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,

Não há nada mais simples.

Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.

Entre uma e outra todos os dias são meus.”

 

Tudo imensamente simples para o celebrado autor da “Mensagem” que dizia uma frase que me orgulha repetir – “A minha pátria é a língua portuguesa”.

Deixo-vos com a ficha pessoal do Poeta, escrita pelo seu próprio punho e génio.

 

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado civil: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será “tradutor”, a mais exacta a de “correspondente estrangeiro” em casas comerciais. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal – Caixa Postal 147, Lisboa).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. É o seguinte o que, de livros ou folhetos, considera como válido: “35 Sonnets” (em inglês), 1918; “English Poems I-II” e “English Poems III” (em inglês também), 1922; livro “Mensagem”, 1934, premiado pelo “Secretariado de Propaganda Nacional” na categoria Poema”. O folheto “O Interregno”, publicado em 1928 e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas e, sobretudo, à Igreja Católica. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da Ordem dos Templários de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: “Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação”.

Posição social: Anti-comunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Lisboa, 30 de Março de 1935.

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Bem vindo à emissão de Natal do “Livros, leituras e companhia”. Vamos hoje falar de um célebre conto de Natal e do seu autor.

 

Charles Dickens foi o mais popular dos romancistas da era vitoriana e contribuiu para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa. A fama dos seus romances e contos pode ser comprovada pelo facto de todos os seus livros continuarem até hoje a ser editados. Entre os seus maiores clássicos destaca-se “A Christmas Carol”, isto é, “Um conto de Natal”.

 

Charles era filho de John Dickens e de Elizabeth Barrow e foi ao ser educado por esta que tomou gosto pelos livros. Durante três anos frequentou uma escola particular, mas, quando ainda era adolescente, o seu pai foi preso por dívidas e Dickens teve que ir trabalhar numa fábrica que produzia graxa para sapatos.

 

Alguns anos depois, a situação financeira da família melhorou, graças a uma herança recebida pelo pai. Mas sua mãe não permitiu que ele saísse logo da fábrica, o que fez com que Dickens nunca lhe perdoasse essa atitude. As más condições de trabalho da classe operária tornar-se-iam um dos temas recorrentes da sua obra.

 

Em 1832 conseguiu um emprego como repórter no jornal “Morning Chronicle”. Passou a publicar crônicas humorísticas sob o pseudônimo de Boz, o que lhe grangeou espaço no jornal para apresentar os capítulos de “As Aventuras do Sr. Pickwick”, com as quais estabeleceu o seu nome como escritor.

 

Dois anos depois começou a divulgar, em folhetins semanais, “Oliver Twist” onde, pela primeira vez, apontava os males sociais da era vitoriana.

 

Já considerado um autor de sucesso, Dickens escreveu “Vida e Aventura de Nicholas Nickleby”, a “Loja de Antiguidades”, entre outros títulos.

Foi em 1843 que publicou o seu mais famoso conto de Natal, “A Christmas Carol” e em 1849 um de seus mais conhecidos romances, “David Copperfield”, inspirado em grande parte, na sua própria vida.

 

Dickens escreveu ainda “História de Duas Cidades”, “Grandes Esperanças”, e “Tempos Difíceis”. Nos últimos anos de sua vida iniciou o livro “O Mistério de Erwin Drood”, mas morreu antes de concluí-lo.

 

Mas nesta quadra, debrucemo-nos sobre o mais célebre livro de Natal de Dickens.

Com várias traduções em Portugal, o livro foi escrito em menos de um mês, originalmente para pagar dívidas, mas tornou-se um dos maiores clássicos natalinos de todos os tempos.

Nele se relata a noite de Ebenezer Scrooge, um homem avarento que não gosta do Natal. Trabalha num escritório em Londres com Bob Cratchit, seu pobre, mas feliz empregado, pai de quatro filhos, um dos quais, o frágil Pequeno Tim que tem problemas nas pernas, lhe merece especial carinho.

Numa véspera de Natal, Scrooge recebe a visita de seu ex-sócio Jacob Marley, morto há sete anos naquele mesmo dia. Marley diz que seu espírito não pode ter paz, já que não foi bom nem generoso em vida, mas diz a Scrooge que ele ainda tem uma chance, e avisa-o de que três espíritos o visitarão…

Quando o primeiro espírito chega apresenta-se como o Espírito dos Natais Passados, levando Scrooge de volta no tempo e fazendo-o reviver a sua adolescência e o início da sua vida adulta, quando ainda amava o Natal. Ao desaparecer, o espírito deixa Scrooge só no seu quarto, triste com as lembranças assim despertadas.

O segundo espírito é um gigante risonho e apresenta-se como sendo o Natal do Presente. Ele mostra a Scrooge as celebrações da época, incluindo a humilde comemoração natalícia do seu empregado, o que lhe permite perceber que, apesar de pobre, a família daquele é muito feliz e unida. No fim da viagem, o espírito revela sob o seu manto duas crianças de caras terríveis, a Ignorância e a Miséria, e pede que se tenha cuidado com elas. Depois disso vai-se embora, não deixando Scrooge indiferente aquilo que viu.

O terceiro espírito, o dos Natais Futuros, apresenta-se como uma figura alta envolta num traje negro que oculta o rosto, deixando entrever apenas uma mão. O espírito não diz nada, apenas aponta, mostrando a Scrooge a sua própria morte, solitária e sem amigos.

Após a visita dos três espíritos, Scrooge amanhece como um outro homem. Passa de novo a amar o Natal, e a ser generoso com os que precisam, e, sobretudo, a ajudar o seu empregado e tornando-se um segundo pai para o Pequeno Tim. Diz-se que ninguém celebrava o Natal com mais entusiasmo que ele.

 

O impacto do sucesso desta obra fez-se sentir logo após a morte do escritor quando, como se conta, uma menina que vendia flores às portas de um teatro de Londres ao saber da notícia, terá perguntado: “Morreu Dickens? E o Pai Natal, será que morreu também?” 

 

Mas muitas outras referências a este “Conto de Natal”, viriam a preencher o futuro das artes.

Talvez o mais conhecido personagem inspirado nesta obra seja o Tio Patinhas (em inglês: Uncle Scrooge), o avarento da Disney que, juntamente com o Rato Mickey, protagonizou o animado Mickey’s Christmas Carol (1983), baseado neste conto.

 

Mas as referências à história natalícia de Dickens não ficam por aqui. No filme Shrek, também é possível encontrá-las, quando na parte final, os personagens cantam juntos, e o bonequinho de gengibre diz, apoiado numa muleta: “Deus abençoe a todos”, numa clara repetição daquela que é uma fala do frágil Tim no romance.

Em 1988 é feita uma releitura do conto no filme “Os Fantasmas Contra Atacam”, protagonizado por Bill Muray e quatro anos depois foi a vez dos Marretas adaptarem a obra no filme “The Muppet Christmas Carol”. O filme “Barbie e a Canção de Natal”  traz-nos a versão feminina deste conto.

Em 2009, a Disney lança o filme em 3D, “Os Fantasmas de Scrooge”, com Jim Carrey no principal papel e, no dia 25 de Dezembro de 2010, foi para o ar um especial de Natal da série britânica Doctor Who, que levou precisamente o nome do conto de Natal de Charles Dickens.

No final de 2011 foi também esse o tema do filme da série Batman “Noel”, que mostra o Cavaleiro das Trevas como um amargurado e desesperado Scrooge, em que Catwoman aparece como o fantasma do passado, Superman como o fantasma do presente, e o Joker como o fantasma do futuro.

 

Desta forma se retrata a imortalidade da obra de Charles Dickens, aquele a quem, no passado, no presente e, quem sabe, no futuro, poderemos apelidar como o autor do Natal.

Boas festas, boas leituras, e até para a semana.

 

04/01/2013 at 11:57 Deixe um comentário

De Adolfo Simões Muller a Vitorino Nemésio – mais textos dos meus programas na Radio Mais Oeste

Bem vindos a este espaço sempre recheado de livros e leituras que nos fazem a melhor companhia.

Adolfo Simões Müller nasceu em Lisboa a 18 de Agosto de 1909, tendo falecido a 17 de Abril de 1989.

Frequentou a Faculdade de Medicina mas abandonou o curso, tendo-se dedicado inteiramente ao jornalismo e à escrita. Mas fê-lo de uma forma verdadeiramente épica e inovadora, o que a sua preenchida carreira aliás demonstra. Foi percursor de múltiplas iniciativas o que faz dele um homem a recordar no nosso programa.

Adolfo Simões Muller, que foi secretário da redacção do jornal católico ”Novidades”, destaca-se como fundador em 1935 do jornal infantil “O Papagaio”, revista de banda desenhada portuguesa de que foi director até 1941. Esta revista infantil, na qual colaboraram o pintor portuense Júlio Resende e o actor-desenhador, José Viana,  apresentava nas suas páginas o célebre Trolaró desenhado pelo sueco Jacobson. Foi a primeira revista portuguesa de Banda Desenhada e, também a primeira não francófona do mundo, a publicar o “As Aventuras de Tintin” do famoso Hergé, bem como a desvendar outros conhecidos heróis como “Astérix” e “Lucky Luck”.

Em 1941 e até 1951, Adolfo Simões Müller vai dirigir outra célebre publicação infantil:  “O Diabrete”, tendo ainda colaborado no sucessor deste – uma publicação chamada “O Cavaleiro andante”.

Em “ As leituras do Pedro blogspot.pt”, podem ler-se algumas memórias sobre estas publicações. Elegi esta:

“A primeira grande revolução na revista, que marcaria todo o seu percurso posterior, e que contribuiu decisivamente para a saudável rivalidade que alimentou com “O Mosquito” ao longo da sua existência, aconteceu logo no vigésimo número, quando Adolfo Simões Müller assumiu efectivamente a sua direcção e também grande parte da sua produção literária, a par de Maria Amélia Barça. Como era então habitual, o “Diabrete” incluiu separatas e construções de armar, organizou concursos e espectáculos e editou romances destacáveis e alguns mini-álbuns, entre os quais “O Dragão Teimoso”, de Walt Disney.”

De facto, os jornalinhos continham historias aos quadradinhos, sendo as da sua autoria as que ocupavam uma grande parte destas folhas semanais e tinham grande popularidade. Recordo-me de como o meu pai me contava que as crianças formavam filas em frente dos quiosques para  comprar, ler e trocar os seus exemplares… Infelizmente só nos alfarrabistas hoje se conseguem encontrar alguns números da sua vasta obra.

Adolfo Simões Müller foi ainda director do gabinete de estudos de programas da Emissora Nacional e produtor de programas para a rádio, tendo inclusivamente sido o autor do primeiro folhetim radiofónico: “ As Pupilas do Senhor Reitor” do escritor português Júlio Dinis sobre quem já aqui falámos num programa. Este género – o folhetim de rádio – foi um fenómeno durante anos, apenas comparável no sucesso às iniciais telenovelas que tanta audiência deram à televisão.

Quando tinha menos de 20 anos, estreou-se na literatura com o volume de poemas “Asas de Ícaro” em 1926.

No entanto, como se disse, foi na literatura infanto-juvenil que se celebrizou, tendo escrito obras como “A Caixinha de Brinquedos”  e “O Feiticeiro da Cabana Azul” ambos galardoado com o Prémio Nacional de Literatura Infantil. Continuando a publicar recebeu em 1982 o prémio Calouste Gulbenkien de Literatura para Crianças, pelo conjunto da sua obra, ex-aequo com o seu ilustrador, José de Lemos.

Para o público juvenil escreveu, entre outros, os livros constantes da colecção Gente Grande para Gente Pequena, onde, com as ilustrações do citado José de Lemos recria, sob a forma romanceada a biografia de grandes personalidades, como Madame Curie com A Pedra Mágica e a Princesinha Doente, Gago Coutinho com O Grande Almirante das Estrelas do Sul, Richard Wagner com O Piloto do Navio Fantasma, Florence Nightingale com A Lâmpada que Não se Apaga ou Camões com As Aventuras do Trinca-Fortes, entre muitas outras. Esta última, por exemplo, trata da biografia do poeta, estruturada em capítulos sobre as aventuras do nosso poeta ao longo da sua conturbada vida, tudo escrito numa linguagem despojada, mas rigorosa a que não falta ironia e humor.

Todas as publicações desta colecção, contêm um prefácio do autor, que é também um guia de leitura, como logo se entende pela epígrafe: O Livro que vão ler.

As ilustrações de Júlio Resende, a preto e branco, excepto na capa e na contra-capa, evidenciam a mestria do pintor.

Entre outras obras, Adolfo Simões Müller adaptou para a juventude Os Lusíadas (1980), A Peregrinação (1980), A Morgadinha dos Canaviais (1982) e As Pupilas do Senhor Reitor (1984), nomes grandes da literatura nacional, mas também outras de índole internacional: “ As Viagens de Gulliver “,e “Miguel Strogoff”, por exemplo.

A obra “Historiazinha de Portugal”, vinda a lume em 1944 foi um dos seus grandes êxitos, cujo objetivo era contar episódios da História de Portugal, de forma simples e clara, de maneira a exaltar o patriotismo dos jovens de então.

Adolfo Simões Müller foi um mestre inovador na prossecução de um dos objectivos mais nobres: despertar e cimentar no espírito das crianças e dos jovens a curiosidade por um dos maiores prazeres de sempre: ler.

Com alguma saudade dos meus tempos de menina em que esperava ansiosa pela chegada de mais um exemplar da colecção Gente Grande para Gente Pequena, aqui me despeço dos meus ouvintes até ao próximo programa.

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Olá, de novo!

Há escritores cujo nome ao seu proferido invoca todo um género de escrita. É o que acontece com a escritora de quem vamos falar hoje –Agatha Christie, que logo evoca a literatura policial.

Nasceu no dia 15 de Setembro de 1890 e faleceu a 12 de Janeiro de 1976. Foi autora de mais de oitenta livros, 19 peças de teatro e seis romances escritos sob o pseudónimo de Mary Westmacott, e os seus livros são os mais traduzidos de todo o planeta, superados apenas pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.

Conhecida como “Duquesa da Morte” ou “Rainha do Crime”, foi a criadora dos detectives Hercule Poirot, o famoso belga popularizado pelo uso das suas células cinzentas, de Miss Marple, a solteirona, que observando a natureza humana consegue solucionar os mais obscuros mistérios, de Tommy e Tuppence Beresford, o amoroso casal de detectives, entre outros.

Em 1912, conheceu o Coronel Archibald Christie, que, após um romance tempestuoso, viria a ser seu marido, já que casaram em 1914. Enquanto o marido esteve na Primeira Guerra Mundial, Agatha trabalhou num hospital e numa farmácia, funções que influenciariam o seu trabalho como romancista, pois muitos dos assassinatos dos seus livros são conseguidos com recurso ao uso de venenos, conhecimento que desenvolveu neste período.

Em 1926, ano do seu divórcio, um episódio muito estranho ocorre com Agatha: a autora desaparece por vários dias.

Já sabendo que o marido tinha outra mulher e tendo ele ido passar um fim-de-semana fora, Agatha abandonou a sua casa na noite de 3 de Dezembro e na manhã seguinte o seu carro foi encontrado junto a um lago com os faróis acesos. Dentro do carro, foram encontrados um casaco de pele e a sua mala. De imediato o desaparecimento da autora se tornou notícia e a polícia local tornou pública a oferta de £100 para quem tivesse qualquer informação sobre ela. Aviões, pela primeira vez usados numa busca semelhante em Inglaterra, mergulhadores e escuteiros – num total de 15.000 voluntários – procuraram Agatha.

A autora já estava desaparecida há 11 dias, quando a polícia soube que ela estava no Old Swan Hotel, em Harrogate. Agatha chegara de táxi no dia 4 de Dezembro trazendo consigo apenas uma mala e hospedara-se sob o nome de Teresa Neele (o mesmo sobrenome da amante de seu marido), dizendo ser da Cidade do Cabo. Curiosamente, aparece um anúncio no jornal Times dizendo que Teresa Neele andava à procura de parentes e amigos da África do Sul. A autora foi reconhecida no hotel por um músico que disse que se lhe dirigiu como “Mrs. Christie” e que esta, apesar de lhe responder, disse que estava amnésica.

Apesar das muitas versões existentes – da amnésia ao golpe publicitário para fazer crescer as vendas do seu livro mais recente, à vingança que quis infligir ao marido por causa da sua traição, o certo é que o que sucedeu a Agatha durante o tempo em que esteve desaparecida permanece um mistério, que, contrariamente aos dos seus livros, ela preferiu manter incógnito.

O primeiro livro de Agatha “O Misterioso Caso de Styles” foi publicado em 1920, vendendo cerca de 2.000 cópias. Em seguida vieram “O Inimigo Secreto”, “Crime no campo de golfe”, “ O homem do fato castanho”, “Poirot Investiga” e “O segredo de Chimneys”. Mas o grande sucesso veio em 1926 com a publicação de “O assassínio de Roger Ackroyd, que vendeu 5.000 cópias.

Em 1927 Agatha voltou a escrever, desta feita “Os quatro grandes”, protagonizado por Hercule Poirot. No outono desse mesmo ano, a convite de um célebre arqueólogo britânico, Agatha vai a Ur, no Médio Oriente, onde toma contacto com a arqueologia. É no ano seguinte quando Agatha volta a Ur, que conhece o jovem arqueólogo Max Mallowan  com quem se casou em 1930. A autora manteve seu nome como Agatha Christie porque assim estava celebrizada entre os seus leitores, mas na sua vida particular era chamada de Mrs. Mallowan. Com o marido, Agatha viajou por todo o mundo, fazendo escavações e aumentando os seus conhecimentos sobre arqueologia de que também se serviu na sua escrita. O casamento com Mallowan duraria até a morte da escritora.

Em 1934, Agatha alcança o auge de sua carreira, com um de seus livros mais famosos, “ Crime do Expresso Oriente”, adaptado para o cinema, teatro e TV em incontáveis ocasiões, sendo a mais famosa delas a versão de 1974 que ganhou um Óscar e três prêmios BAFTA.  Só no ano de lançamento do filme, o romance original vendeu 3 milhões de cópias.

O último livro protagonizado por Hercule Poirot, “Cai o pano” já escrito nos anos 40, foi publicado em Dezembro de 1975, porque Agatha já não se sentia disposta a continuar a escrever. A autora veio a falecer 2 meses depois.

Agatha Christie entrou para o Livro de Recordes do Guinness por ter escrito a peça teatral que há mais tempo está em cena: “A Ratoeira”, estreada a 25 de Novembro de 1952 e que continua em palco até hoje, passados que são 60 anos.

Outro recorde de Agatha, foi o de ter escrito o livro mais grosso do mundo, medindo mais de 30 cm de comprimento, possuindo 4.032 páginas, e contendo todos os 12 romances e 20 contos protagonizados por Miss Marple.

Agatha Christie, apesar de não gostar muito de falar em público, desvenda na sua Autobiografia muito sobre seu estilo de escrita e os seus gostos literários onde se incluem alguns clássicos ingleses, como seria de esperar.

 “A escrita é um grande conforto para pessoas como eu, que estão inseguros sobre si mesmos e têm dificuldade para expressar-se correctamente”, refere a autora, dizendo também assustar-se com o facto das pessoas não se preocuparem com as vítimas mas sim com os culpados, quando leem um romance policial.

Agatha Christie foi uma verdadeira pioneira ao fazer com que os desfechos de seus livros fossem extremamente impressionantes e inesperados, sendo praticamente impossível ao leitor descobrir quem é o assassino. Vai uma aposta? É de ler e chorar por mais!

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De volta a mais um espaço de livros, leituras e companhia, vamos hoje falar de quem teve, na sua época a coragem suficiente para dar um passo de gigante e querer ser reconhecida como escritora – Jane Austen. É dela que vamos falar.

Austen nasceu a 16 de Dezembro de 1775, e foi uma proeminente escritora inglesa.

Veio à luz no seio de uma extensa família, formada por oito irmãos, sendo Jane e sua irmã mais velha, Cassandra, as únicas mulheres. O reverendo Austen e a sua família pertenciam à burguesia agrária, e esse estatuto, bem como o ambiente que a rodeava, serviu de contexto para as suas obras, cujo tema mais recorrente gira em torno do casamento da protagonista. Contudo, a inocência das obras de Austen é apenas aparente, e em alguns meios académicos actuais, reconhece-se nas mesmas alguma aproximação ao pensamento de Mary Wollstonecraft, outra escritora britânica, considerada uma das pioneiras do moderno feminismo e as suas inevitáveis repercussões na educação da mulher.

Torna-se difícil precisar o momento em que Jane Austen começou a escrever. A existência de cadernos de notas contendo relatos assinala que o talento despertou em tenra idade, e aos 16 anos, parecia já dispôr de um bom número de exemplares armazenados.

Jane e sua irmã Cassandra foram enviadas para casa da Sra. Cawley, em Southampton, para aí prosseguirem a educação sob sua tutela, como era uso da época e, três anos mais tarde, ambas foram alunas de um internato em Reading, lugar que pode ter inspirado Jane para descrever o internato da Sra. Goddard, que aparece no romance “Emma”. A educação que Austen recebeu ali foi a única recebida fora do âmbito familiar. Por outro lado, sabe-se que o reverendo Austen tinha uma ampla biblioteca e, segundo ela mesma conta nas suas cartas, tanto ela quanto a sua família eram “ávidos leitores de romances, e não se envergonhavam disso”. Assim como lia romances de homens como Fielding, lia também obras femininas como as de Frances Burney, onde colheu o título de “Orgulho e Preconceito” retirado de uma frase dessa autora, no seu romance “Cecilia”.

Torna-se aqui necessário precisar que a época durante o qual Jane viveu, a chamada regência, no caso a de Jorge IV como Príncipe de Gales durante a enfermidade de seu pai, constitui um período de transição entre estilos: o georgiano e o vitoriano. Assim o pensamento de Jane Austen demonstra o seu interesse pelo ressurgimento do romance e defende-o como um gênero literário de qualidade, questão muito relevante, dado que a recém surgida imprensa tinha tornado possível a aquisição de livros pelas classes mais pobres fazendo subir o número de livros publicados o que veio incrementar o número de escritores profissionais, ou seja, um novo tipo de leitores propiciou um novo tipo de literatura.

Romances de qualidade e a educação, sobretudo a das mulheres, são pedras de toque na escrita de Jane Austen. As regras vigentes para a educação na época continham-se no célebre tratado “Emilio” de Rousseau, que tem suas bases no Iluminismo e onde se enuncia a tese de que todos os males se originavam na própria sociedade, sendo a única alternativa a transformação do homem através da educação – uma educação que o permitisse libertar-se da corrupção provocada pela própria sociedade. A influência do Iluminismo fez com que se começasse a criar um sistema educativo fundamentado na razão. Sem dúvida, que tanto para Rousseau, como para muitos outros pensadores do Iluminismo, a mulher estava excluída dessa necessidade educativa: a mulher devia ser educada para cumprir suas funções de esposa e mãe, e obedecer ao seu marido, ou seja, privilegiando os aspectos domésticos, a religião e os “talentos”. E é curioso notar que há muitas passagens nas obras de Jane Austen em que esta se refere aos “talentos”, mas, se há algo que todas essas obras têm em comum é que nenhuma de suas heroínas está muito interessada por eles…já que Jane Austen advoga uma educação liberal para a mulher, uma que a torne independente.

Entre 1795 e 1799, Jane começou a redigir as primeiras versões dos romances que se publicariam sob os nomes “Sensibilidade e Bom Senso”, “Orgulho e Preconceito” e “ A Abadia de Northanger”. Uma primeira tentativa de publicar “Orgulho e Preconceito” em 1797, levada a cabo pelo pai de Jane, foi recusada pelo editor.

Depois da morte do pai, Jane e Cassandra mudaram-se para uma localidade perto de Alton e uma vez instaladas, Jane retomou suas atividades literárias. Reviu “Sensibilidade e Bom Senso”, que foi aceite por um editor em 1810, apesar de, em bom rigor se tratar de uma edição da autora, que assumiu os riscos da publicação, saída a público sob pseudónimo. A publicação, contudo, teve êxito e, animada por ele, a autora tentou publicar também “Orgulho e Preconceito”, o que aconteceu em Janeiro de 1813. Ao mesmo tempo, começou a trabalhar noutra obra “Mansfield Park” e também por essa altura, a verdadeira identidade da autora começou a difundir-se, graças à popularidade da obra e à indiscrição da família. Nesse mesmo ano foi publicada a 2ª edição de suas obras, e em Maio de 1814, surgiu Mansfield Park, obra da qual se venderam todos os exemplares em seis meses, tendo Jane começado a trabalhar no romance “Emma”.

Era o seu irmão Henry, que vivia em Londres e em casa de quem Jane se alojava quando estava na cidade, que se encarregava de negociar com os editores. Ora acontece que o médico de Henry Austen era o mesmo do príncipe Regente, o qual, ao descobrir que Jane era a autora de “Orgulho e Preconceito” e “Sensibilidade e Bom Senso”, obras que apreciara muito, pediu ao médico que intercedesse junto de Henry para que a autora lhe dedicasse o seu romance seguinte, o que, de facto, viria a acontecer em Dezembro de 1815, com “Emma”.

Austen começou de imediato a escrever “Persuasion” mas teve, pouco tempo depois de abandonar a obra por causa do seu estado de saúde que, em 18 de Julho de 1817, a conduziria à morte, aos 41 anos de idade.

Jane Austen retratou com toques de ironia os costumes da sociedade que conheceu, utilizando essa arma para descrever as personagens dos seus romances, que são, sem dúvida dignos representantes de uma época e uma leitura bastante agradável que recomendo vivamente, despedindo-me até para a semana.

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José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, nascido em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901, e aí falecido a 22 de Dezembro de 1969 foi um escritor português que viveu grande parte da sua vida na cidade de Portalegre. Foi possivelmente o único escritor em língua portuguesa a dominar com igual mestria todos os géneros literários, sendo considerado um dos grandes criadores da moderna literatura portuguesa. Poeta, romancista, historiador, entre outras coisas, Régio chegou a ilustrar as suas próprias obras. Nesta reflectiu-se transversalmente a problemática relativa ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade.

Foi em Vila do Conde que José Régio viveu até acabar o quinto ano do liceu. Ainda jovem, publicou na sua terra-natal os primeiros poemas nos jornais “O Democrático” e “República”. Depois de uma breve e infeliz passagem por um internato do Porto, aos dezoito anos foi para Coimbra, onde se licenciou em Filologia Românica, com a tese “As Correntes e As Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa”. Esta tese na época não teve muito sucesso, uma vez que valorizava poetas quase desconhecidos na altura, como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro; mas, em 1941, foi publicada com o título “Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa”.

Em 1927, juntamente com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, fundou a revista “Presença” e iniciou um movimento que viria a marcar profundamente a literatura portuguesa no período anterior à guerra, constituindo uma espécie de 2º modernismo. A sua estreia literária data de 1925, altura em que publicou a sua obra mais conhecida “Poemas de Deus e do Diabo”. Além da poesia, dedicou-se ao teatro, ficção e crítica literária.

A sua obra explora quase obsessivamente as contradições do ser humano, oscilando dramaticamente entre, precisamente, “Deus e o Diabo” apreendendo poeticamente as contradições psicológicas do ser humano, permanentemente dividido entre o que em si há de melhor e pior.

Por detrás dessa atitude torna-se evidente o clima cultural da primeira metade do século, com a afirmação da ciência psicológica, inclusive a psicanálise, e a difusão de correntes literárias dessa raiz. Além desta influência, é possível detectar ainda alguma inspiração do modernismo e do saudosismo, bem como do Evangelho. As preocupações religiosas são outra constante da sua obra, afinal outra forma de afirmação da contradição humana. Mergulhado nesse conflito insolúvel, o homem aparece sempre como um ser inacabado, imperfeito, permanentemente dividido entre a carne e o espírito, entre o céu e a terra. Não encontramos nas palavras de Régio, nem o optimismo racionalista dos descrentes, nem a tranquilidade confiante dos crentes mas antes a procura do absoluto, melhor dizendo, da graça divina, única via para a superação dessas contradições profundas. O sentimento dessa divisão interior traduz-se numa elaboração poética de estrutura dramática, com o aparecimento de “personagens” íntimas, que dialogam e se confrontam, características que têm o seu desenvolvimentos máximo na ficção e no teatro de Régio. A peça “Benilde ou a Virgem-Mãe” que foi adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira, é disso exemplo.

Foi ainda nesse ano de 1927 que José Régio começou a leccionar Português e Francês primeiro num liceu no Porto e depois em Portalegre, onde esteve quase quarenta anos. Durante esse tempo, reuniu uma extensa e preciosa colecção de antiguidades e de arte sacra alentejanas que vendeu à Câmara Municipal de Portalegre, com a condição de esta comprar também o prédio da pensão onde vivia e de a transformar em casa-museu. Em 1966, Régio reformou-se e voltou para a sua casa natal em Vila do Conde, continuando a escrever. Fumador inveterado, veio a morrer em 1969, vítima de ataque cardíaco.

Em 1970 foi-lhe atribuído, a título póstumo, o Prémio Nacional de Poesia, pelo conjunto da sua obra poética.

Régio teve durante a sua vida uma participação activa na vida pública, mantendo-se fiel aos seus ideais socialistas, apesar do regime conservador de então, mas sem condescender igualmente com a arte panfletária. Hoje em dia as suas casas em Vila do Conde e em Portalegre são casas-museu.

 

Deixo-vos com uma amostra da excelente obra de José Régio, lendo-vos a última estrofe de um dos seus maiores poemas – Cântico Negro, declamado como ninguém para a eternidade pelo grande João Vilarett e na qual se explanam todas as preocupações que marcaram a vida e a obra de José Régio.

 

“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

– Sei que não vou por aí!”

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Bem vindos a mais este espaço em que os livros são reis.

Numa edição anterior falámos da literatura da Oceânia, nomeadamente da australiana que agora começa a despontar, pelo menos para nós, europeus. Ficou a promessa de voltarmos a falar daquela literatura, mais especificamente da literatura neozelandesa. Hoje vamos cumprir essa promessa.

Os Māori são o povo que os primeiros exploradores europeus encontraram quando chegaram às ilhas da Nova Zelândia. Ainda que se referissem às pessoas que lá encontraram como “aborígenes“, “nativos” ou “neozelandezes”,  maori  permaneceu como o termo usado pelo próprio povo para se descrever a si mesmo.  Este povo detinha uma relevante cultura pré-literária desde a idade da pedra, à base fundamentalmente da oralidade e da recitação de histórias e canções, em que exprimiam a sua sensibilidade sob a forma de poemas cantados os chamados “Māori waiata”. O facto dos primeiros povoadores que se fixaram na Nova Zelândia serem comerciantes e livres colonizadores, ao invés de degredados, marcou notáveis diferenças entre a literatura australiana e a neozelandesa. Os colonos reconheceram a presença dos Māori indígenas e também o lugar especial que eles ocupam na sua cultura. Embora a linguagem maori não fosse escrita, quando os missionários cristãos necessitaram de ajuda no seu trabalho evangélico, desenvolveram formas escritas de línguas polinésias para ultrapassar tal questão. Esta situação veio a ter particular importância para o aparecimento da literatura neo-zelandesa. A tradição oral de contar histórias, contudo,  sobreviveu e os primeiros missionários fizeram recolhas de contos populares. Sem obras literárias originais em língua Māori foram feitas traduções de obras, essencialmente de língua inglesa, o que permitiu que as mesmas se tornassem amplamente lidas. Assim, não sendo absolutamente correcto dizer que existe uma literatura maori, existe, de facto, uma literatura em inglês a lidar com temas maoris.

A partir de 1950, a literatura teve enorme desenvolvimento e dela hoje ressaltam nomes como Patricia Grace, Keri Hulme, Maurice Gee e a mundialmente conhecida autora infantil Margaret Mahy, que são proeminentes na Nova Zelândia, tendo ganho vários prémios.

Witi Ihimaera, reconhecido como um dos maiores autores maoris vivo escreveu a novela que se tornou o argumento do aclamado filme “A Encantadora de Baleias”. As suas obras lidam com a vida māori no mundo moderno, muitas vezes incorporando elementos fantásticos, oriundos da respectiva cultura.

Também a poesia se desenvolveu na Nova Zelândia como uma voz forte e local e rapidamente se tornou uma “polifonia” de vozes tradicionalmente marginalizadas.

A Nova Zelândia, para além dos seus escritores nativos, cativa ainda muitos dos que por ela passam, seja em esporádicas estadias ou mais longos exílios, levando a que, dessa forma, as literaturas mundiais, sempre com destaque para as europeias, se recheiem de intercorrências culturais oriundas daquele país. É o caso mais recente de Sarah Lark, uma guia turística de origem alemã e a residir em Espanha que acaba de lançar o segundo volume de uma saga inteiramente passada na Nova Zelândia, saga que se iniciou com “No País da Nuvem branca” a que se segue este “A canção dos Maori”. Embora não traduzidos em português ambas as obras se encontram disponíveis nas nossas livrarias numa belíssima tradução espanhola e vale muito a pena lê-la, desfrutando ao longo de uma escrita simples e eficaz da beleza e exotismo do povo e das paisagens, bem como para encontrar naquelas longínquas paragens os sentimentos mais fortes que caracterizam toda a raça humana. Vale a pena ter a companhia destes livros!

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Bem-vindos.

Este programa é dedicado a Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva que nasceu na cidade da Praia da Vitória, capital da Ilha Terceira, arquipélago dos Açores no dia 19 de Dezembro de 1901 e faleceu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978.

Vitorino Nemésio foi poeta, escritor e intelectual tendo-se destacado no romance como autor de “Mau Tempo no Canal” , livro trabalhado desde 1939 e publicado dez anos depois. A acção desta obra inesquecível decorre nas ilhas do Faial, Terceira, Pico e na ilha de São Jorge entre 1917 e 1919 e retrata a sociedade açoriana, mais concretamente, a sociedade estratificada da cidade da Horta, local onde decorre a intriga principal e onde Vitorino Nemésio se encontrava à época que retrata.

“Mau Tempo no Canal” conta uma quantidade de histórias numa só, é uma trama que enreda uma série de sucedidos e cujo ponto de apoio mais evidente é a relação entre dois personagens, entre duas famílias e entre dois estratos sociais. Literalmente pelo meio, está o canal do título, o braço de mar que divide as ilhas do Faial e do Pico, que divide os proprietários e novos-ricos da ilha da Horta, dos pobres, populares e simples baleeiros do Pico. É, digo eu, de leitura obrigatória.

O romance retrata bem o ambiente cosmopolita vivido na ilha da Horta no final da Primeira Guerra Mundial, época em que a ilha possuía um intenso comércio marítimo e uma impressionante animação nocturna, uma vez que se constituíu em porto de escala obrigatória, local de reabastecimento de frotas e de repouso da marinhagem.  Na Horta estavam instaladas as companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos, que convertiam a cidade num “nó de comunicações” mundiais.

O facto de em 1919 ter iniciado o serviço militar como voluntário na arma de Infantaria, proporcionou ao escritor a sua primeira viagem para fora do arquipélago. Concluiu o liceu em Coimbra, cidade onde se inscreve na Faculdade de Direito da respectiva Universidade. Três anos mais tarde, Nemésio trocou esse curso pelo de Ciências Histórico Filosóficas, da Faculdade de Letras também de Coimbra, e, em 1925, matriculou-se no curso de Filologia Românica.

Outra primeira viagem, desta feita para o estrangeiro, mais concretamente para Espanha, onde vai com o Orfeão Académico em 1923, proporciona-lhe conhecer Miguel Unamuno, escritor e filósofo espanhol, intelectual republicano e teórico do humanismo revolucionário antifranquista, com quem trocará correspondência anos mais tarde.

A partir de 1931 e até 1971, Nemésio exerceu a sua carreira académica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde leccionou Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Mas teve outras passagens académicas, nomeadamente pela Universidade Livre de Bruxelas, e também pelo Brasil.

Foi autor e apresentador do programa televisivo “Se bem me lembro”, que muito contribuiu para popularizar a sua figura, tendo dirigido ainda o jornal “O Dia” entre Dezembro de 1975 e Outubro de 1976.

Foi um dos grandes escritores portugueses do século XX, tendo recebido em 1965, o Prémio Nacional da Literatura e, em 1974, o Prémio Montaigne.

Faleceu a 20 de Fevereiro de 1978, em Lisboa, tendo sido sepultado em Coimbra, a seu pedido. Pouco antes de morrer, pediu também ao filho para que, nessa ocasião, os sinos tocassem o Aleluia em vez do dobre a finados. O seu pedido foi respeitado.

Vitorino Nemésio, aliando o seu acentuado sotaque açoriano e a sua prodigiosa forma de comunicar à enorme capacidade que a televisão tem de transportar as pessoas que aparecem no écran para dentro das nossas vidas, tornou-se para muitos portugueses, uma “figura lá de casa”, nos domingos ao final da tarde, inesquecível para quem alguma vez viu o programa, que, espera-se faça parte do acervo histórico da RTP, de modo a poder ser visto pelas gerações que não tiveram ainda esse privilégio e revisitado por aqueles que dele “bem se lembram”.

Até para a semana.

03/01/2013 at 17:18 2 comentários

Meus programas de radio…continuação

Espiões!!!!!

Sejam bem-vindos à nossa habitual rubrica de livros e leitura.

Hoje vamos falar de um livro recém publicado, que se intitula

“Lisboa 1939-1945”

A Guerra nas Sombras da Cidade da Luz, de Neill Lochery

Lisboa foi, durante a Segunda Guerra Mundial, um dos principais, senão o principal centro da espionagem e da intriga internacional. Foi a única cidade europeia onde Aliados e potências do Eixo operavam à luz do dia e se vigiavam uns aos outros, sem qualquer pudor.

Local de destino idílico, onde se cruzaram fugas, desejos, paixões e segredos, Lisboa teve todos os ingredientes necessários para ser o centro das atenções – manobras de bastidores, traições, mercado negro, espiões de ambos os lados da guerra, refugiados, banqueiros, diplomatas, elementos da realeza europeia exilada e da alta sociedade, escritores e artistas, todos se cruzavam nos hotéis e cafés em pleno centro da cidade ou na luminosa costa do Estoril. E está, dessa forma, descrito o elenco que rodeou Salazar e a história da neutralidade e soberania portuguesas.

Nesta obra agora publicada, Neill Lochery oferece-nos a oportunidade única de visitar Lisboa na época em que foi chamada de “Cidade da Luz.”

Este investigador, de nacionalidade escocesa, é doutorado em Ciências Políticas pela Universidade de Durham. É especialista em história política de Israel, do Médio Oriente e do Mediterrâneo, colaborando regularmente como comentador na imprensa televisiva internacional. É autor de cinco livros e de inúmeros artigos para jornais e revistas. Actualmente é responsável pela cadeira de Política Israelita na UCL (University College London) e divide o seu tempo entre essa cidade, Lisboa e o Médio Oriente. Durante o tempo em que escreveu este “Lisboa 1939-1945”, fixou a sua residência na zona do Estoril. Fala fluentemente em português, já que o seu primeiro emprego foi no British Council, em Coimbra.

Embora seja uma crónica bem documentada, este livro quase parece e lê-se como um romance e traça um rigosorso cenário dos bastidores da guerra, com Lisboa a elevar-se a uma importância impensável para a capital de um pequeno país periférico, liderado por um ditador avesso ao protagonismo. Uma cidade que para milhares de judeus era a porta aberta para a fuga do enorme campo de concentração em que Hitler convertera a Europa. Muitos anónimos, outros famosos, instalaram-se por cá durante uns tempos. Marc Chagall, de origem judaica, célebre pintor russo-francês, Max Ernst, pintor surrealista alemão, a coleccionadora de arte Peggy Guggenheim, fundadora do museu com o mesmo nome, entre outros. Também foi aqui, mais precisamente no Estoril, que Ian Fleming ensaiou a sua operação “Golden Eye” e se inspirou para algumas sagas do mais famoso espião do mundo, James Bond. Há quem fale de um falhado atentado para assassinar os duques de Windsor, a americana Wallis Simpson e o seu marido Eduardo VIII, que por amor dela abdicou do trono de Inglaterra. Também residente no Estoril, outro grande escritor de quem falaremos um dia destes, Graham Green, escreveu algumas das suas obras.

Tudo debaixo do olhar mais ou menos distraído, mais ou menos cúmplice, nem contra nem a favor dos judeus, sem ser hostil, mas sem se aliar a atitudes solidárias de António de Oliveira Salazar, à data considerado – e a classificação é de um oficial britânico – “o mais atraente dos ditadores europeus”.

Vale a pena ler este “Lisboa”, cidade das luzes, capital de Portugal, esse pequeno país com um papel relevante e influente no conflito, que veio a ser o principal ponto de chegada e de partida de refugiados para atravessar o Atlântico, uma nação fornecedora de tunguesténio usado para fabrico de armamento alemão, o que num estranho equilíbrio político lhe valeu a independência e a neutralidade.

Disponível na colecção “Biblioteca do Século”, este livro pode ser adquirido em qualquer livraria, e também online, através do site de Editorial Presença, onde tem um preço promocional de 16,11€.

Se ficou interessado nesta temática, outros livros estão disponíveis nas nossas livrarias, e aqui deixo a sua menção:

“O Último Acto em Lisboa” e “A Companhia de Estranhos”, ambos de Robert Wilson, publicados pela Dom Quixote,

“Enquanto Salazar Dormia…”, de Domingos Amaral, editado pela Casa das Letras,

“Comboio nocturno para Lisboa”, Pascal Mercier, editado pela Dom Quixote

“Encontro em Lisboa” de Tom Gabbay, editado pela Casa das Letras.

Todos passíveis de serem adquiridos na Wook online, com um preço bastante razoável ou disponíveis em qualquer livraria.

Boas leituras, com espiões ou sem eles, boa semana, até ao próximo encontro.

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Gore Vidal

Boa tarde para si, que é companheiro dos nossos livros e das nossas leituras.

Recentemente falecido em 31 de Julho último aos 87 anos de idade, Gore Vidal foi um autor, dramaturgo, ensaísta, guionista e activista político dos Estados Unidos.

Nascido na base militar de West Point, Eugene Louis Vidal era filho de uma socialite e actriz da Broadway e de um jogador de basquetebol e capitão de aeronáutica (um dos primeiros pilotos da Army Air Corps e fundadores da TWA, e, segundo consta, o grande amor da aviadora Amelia Earhart), era neto de Thomas Gore, famoso (e cego) senador democrata pelo Oklahoma, de quem adoptou o apelido literário e na companhia de quem cresceu em Washington D.C., após o divórcio dos pais.

Ingressou na literatura ainda adolescente, escrevendo contos e poemas, tendo publicado o seu primeiro romance, “Williwaw”, aos 21 anos quando servia nas Forças Armadas durante a Segunda Guerra Mundial e que foi o primeiro romance a ser escrito sobre esse tema e, também um grande sucesso para Vidal.

Alguns anos mais tarde, em 1948, publica “A Cidade e o Pilar” que causou enorme escândalo na época, pela sua representação desapaixonada da homossexualidade. O romance foi dedicado a “J. T.”, e apenas décadas mais tarde, depois de algumas revistas terem publicado rumores acerca dessa identidade é que Vidal confirmou que eram as iniciais do seu apaixonado James “Jimmy” Trimble III, morto em combate na batalha de Iwo Jima no dia 1 de março de 1945, acrescentando que Trimble foi a única pessoa a quem verdadeiramente amou. Toda esta controvérsia transformou-o, nos anos 50, num alvo das perseguições levadas a cabo pelos adeptos do senador McCarthy. Tudo isto lhe complicou a vida literárias e , por razões múltiplas, Gore Vidal viu-se impelido a escrever sob pseudónimo. Assim, nos anos 50 do passado século, vários romances de mistério vêm a lume, sob o pseudónimo de Edgar Box de novo com um sucesso que financiou Vidal por mais de uma década.

Depois disso Gore Vidal escreveu peças de teatro, filmes e séries de televisão que rapidamente se tornaram sucessos da Broadway e do cinema, possibilitando assim que viesse a ser contratado como guionista pela Metro Goldwyn Mayer em 1956.

Na década de 1960, Vidal escreveu três romances. O primeiro, “Julian”, sobre o imperador romano apóstata, o segundo, “Washington, DC” publicado em 1967, centrado numa família política da era do Presidente Roosevelt e o último, uma comédia satírica transexual “Myra Breckinridge” datada de 1968 que versa sobre uma variação sobre os temas que são familiares ao escritor: sexo, género e cultura popular. Trata-se do diário satírico de um transexual que, após uma cirurgia de mudança de sexo, dá aulas numa academia de cinema em Los Angeles.

Talvez influenciado pelo isolacionismo do avô Thomas, sempre lutou radicalmente contra todas as formas de segregação social e sexual, tendo sido também um crítico cáustico das posturas belicistas e expansionistas adoptadas pelos dirigentes norte-americanos. Era um apaixonado «pela antiga convicção americana de que o que está mal na sociedade humana pode ser consertado pela acção humana», mas não hesitava em dizer que «os EUA foram fundados pelas pessoas mais brilhantes do país — e não as vemos desde então».

Residiu, numa espécie de auto-exílio, muitos anos em Ravello, Itália, tendo retornado para Los Angeles, quando da enfermidade e posterior morte de seu companheiro Howard Austen, em 2003. Continuou a escrever livros e artigos para periódicos do mundo inteiro, tendo vindo a falecer de pneumonia no passado mês de Julho.

Na ficção ou no ensaio, Vidal tratou grande parte da história e da cultura americanas. A crítica reconheceu-lhe a inteligência, a capacidade de análise radical e fulgurante, mas nunca deixou de acentuar a sua ausência de genialidade na ficção, o que talvez justifique a não atribuição de prémios à sua obra, já que, apenas em 2009, recebeu um National Book Award honorário.

Nenhum escritor americano do século XX teve uma vida tão agitada e brilhante como Gore Vidal. Em “Navegação Ponto por Ponto” Memórias 1964-2006, este polémico escritor e ensaísta fala sem pudor, mas com a inteligência e vivacidade que o caracterizam das suas vivências mais extraordinárias. Como se pode ler na sinopse desta obra, a escolha do seu título “refere-se ao feito algo perigoso de comandar um navio sem bússola, espelhando, metaforicamente, o percurso em ziguezague da vida de Vidal”.

Despedimo-nos até para a semana com votos de boas leituras.

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Uma das minhas autoras de eleição! – Isabel Allende

Bem vindos, mais uma vez.

“Sou Maya Vidal, dezanove anos, sexo feminino, solteira, sem namorado por falta de oportunidade e não por esquisitice, nascida em Berkeley, Califórnia, com passaporte americano, temporariamente refugiada numa ilha no sul do mundo. Chamaram-me Maya porque a minha Nini adora a Índia e não ocorreu outro nome aos meus pais, embora tenham tido nove meses para pensar no assunto. Em hindi, Maya significa feitiço, ilusão, sonho, o que não tem nada a ver com o meu carácter. Átila teria sido mais apropriado, pois onde ponho o pé a erva não volta a crescer.”

Assim, deste modo frontal, começa a narrativa de Maya, a mais recente mulher de uma colecção fantástica de personagens femininas de uma das maiores referências da literatura sul americana da actualidade – Isabel Allende.

Falo-vos de “O caderno de Maya”, editado recentemente em Portugal. O livro é narrado na primeira pessoa e conhecemos a história através do diário de Maya, uma jovem de dezanove anos com um percurso mais do que doloroso na sua adolescência. Maya tem um passado que a persegue, um futuro ainda por construir e um caderno para escrever toda uma vida.

A acção do livro decorre em Chiloé, uma ilhota chilena onde a rapariga se refugia e é aí que somos apresentados gradual e intercaladamente ao seu dia-a-dia na ilha e ao seu percurso errante na adolescência passado no submundo de Las Vegas.

Criada pelos avós, mimada e adorada e com uma vida estável, Maya sente, ao entrar na adolescência e no liceu, a necessidade de se afirmar junto do seu grupo social, o que a leva a mergulhar no mundo da droga e dos pequenos delitos. Entre a sua atrapalhada vida na América e o seu aparente marasmo no quotidiano da ilha, a escrita de Allende, ou seja, a de Maya, oscila ao longo de todo o livro, dado que ambas as realidades têm registos diferentes que alternam abruptamente à medida que Maya muda de assunto no seu diário.

Li todos os livros de Isabel Allende e conheço intimamente, posso dizê-lo, todas as suas personagens femininas. Mulheres fortes e determinadas, apaixonadas e apaixonantes. A galeria continua a completar-se com Maya, que, embora adolescente, já tem em si a mulher que vai ser.

Este “Caderno de Maya”, se por um lado espelha as dificuldades da adolescência no mundo actual e o abrangente conhecimento que os jovens parecem dele ter, mas que os conduz, paradoxalmente a erradas escolhas, reflecte ainda sobre a importância da infância e da vida familiar na adolescência.

É à sua família que Isabel Allende, filha de um primo/irmão de Salvador Allende, dirigente chileno morto aquando do golpe de estado de 1972, vai buscar inspiração para muitas das suas personagens, desde os seus avós, que inspiraram grande parte do elenco do seu primeiro livro “A casa dos Espíritos”, até à sua filha Paula, protagonista do romance com o mesmo nome e em que a autora conta não só a sua vida como também o período doloroso que antecedeu a sua morte. Embora nascesse em Lima, Isabel era filha de pai chileno e mãe cujos antepassados se contam entre bascos e portugueses, da família dos Barros Moreira. Isabel preza muito a sua grande comunidade familiar, com particular destaque para a sua mãe, primeira leitora e crítica de todas as suas obras, ainda sob a forma de manuscrito, e que tem sido de um grande incentivo para Isabel, que sempre começa a escrever os seus livros no dia 8 de Janeiro.

Concordo com as palavras de Joana Emídio Marques, escritas no Diário de Notícias: “ Se Salvador Allende defendeu o Chile com a vida, Isabel Allende, sua sobrinha, defende-o até hoje com as suas palavras.”

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Concurso Novos Talentos!”

Dou-vos as boas vindas a mais um espaço em que os livros e as leituras são os protagonistas.

A literatura é um processo de permanente evolução, não se pára nem se estanca. Para isso, e para que se renove constantemente, há que dar espaço a novos escritores, havendo que ajudá-los a raiar o horizonte da divulgação. Existem algumas editoras especializadas neste tema, mas uma forma de instigar e também de permitir o lançamento e a consequente descoberta de novos talentos, são os concursos que algumas entidades promovem precisamente com esse fito. Entre eles destacamos o promovido anualmente pela FNAC.

A FNAC – Federação Nacional dos gerentes de compras, tradução do nome original francês “Fédèration National des Achats”, fundada em 1954, é uma rede francesa de lojas especializadas na distribuição de produtos culturais que vão desde a músicaliteraturacinemajogos de vídeo e eletrónica, para o público em geral. A política de expansão da FNAC levou a que se abrissem lojas noutros países, incluindo em Portugal, onde rapidamente conquistou o mercado.

“Quer ver o seu conto publicado?” é o nome do concurso que permite dar a conhecer talentos desconhecidos.

“5 contos inéditos de 5 autores por descobrir”, é o título do livro que compila as obras vencedoras desse concurso.

– Entrevistas de Emprego, de Regina Samagaio

– João, O Trovador, de Emílio Gouveia Miranda

– Sine Die, de André Domingues

– Bus, de Luiz Milhafre e

– Maria, uma Breve História, de Maria João Lourenço

são os contos vencedores do ano de 2011, sendo que em 30 de Abril deste ano se encerrou já uma nova candidatura a este prémio, cujo regulamento de acesso se encontra anualmente disponibilizado nas lojas e no site da FNAC.

As obras agora publicadas foram as escolhidas entre os 950 contos a concurso de entre as quais o júri, composto por Dóris Graça Dias, crítica literária, Carlos da Veiga Ferreira, editor e Valter Hugo Mãe, escritor, escolheu as 10 finalistas, que foram votadas pelo público através do site cultura.fnac.pt

E assim, os 5 contos mais votados podem agora ser lidos neste livro, cuja totalidade das vendas reverte a favor do projecto Infotecas FNAC/AMI Contra a InfoExclusão. O preço é muito acessível – 4€, o que torna quase irresistível a leitura deste livro.

De referir ainda que as edições Novos Talentos são o destaque que a FNAC dedica a artistas promissores também nas áreas da música, fotografia e cinema. Autores ainda desconhecidos que se distinguem pela qualidade e inovação do seu trabalho, à margem das correntes e desprendido de estilos e modas.

Mais uma boa razão para instigar à leitura e à descoberta dos novos livros que andam por aí a ser escritos. Boas pesquisas e óptimas leituras para esta semana é o que vos desejo, esperando encontrarmo-nos no próximo programa.

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Enid Blyton: a alegria da criançada!

Bem-vindos a mais esta edição de “Livros, leituras e companhia”. Falaremos hoje daquela que, durante gerações e até agora é uma referência dos livros infanto-juvenis: a autora dos Cinco e dos Sete, do Nodi e das Gémeas, entre outros muitos êxitos.

Vamos falar de Enid Blyton.

Enid Mary Blyton, nasceu a 11 de Agosto de 1897 em Londres. Com alguns meses de idade, a sua família mudou-se para Kent, localidade rural nos finais do século XIX onde Enid e os seus irmãos passaram a infância.

Enid gostava da natureza e de história, bem como gostava muito de ler e escrever. Lia tudo o que lhe caia nas mãos, até enciclopédias difíceis. Com o incentivo do pai começou a inventar a suas próprias histórias e a escrever poemas.

Em 1916, Enid decidiu que queria estudar para professora primária, estudos que inicia um ano depois.

Nas suas horas vagas começou a escrever mais regularmente, e durante dois anos procurou infrutiferamente um editor para os seus trabalhos. Finalmente conseguiu que dois pequenos poemas seus fossem publicados ainda que sem ostentar o nome da autora. Quando terminou os seus estudos e começou a trabalhar como professora, Enid continuou a escrever e no Verão desse mesmo ano publica o seu primeiro livro, contendo uma colecção de poemas e com uma capa de cartão desenhada por um amigo da escola. Dado o êxito obtido, o editor publicou outra colecção no ano seguinte, começando dessa forma a sua carreira como autora.

Em Fevereiro de 1922 inicia também uma colaboração com artigos para a revista “Teachers World”, colaboração que duraria até 1945, e onde, a partir de 1929, vai ter uma página semanal com o título “ A página das crianças de Enid Blyton” contendo uma carta, um poema e uma história.

Foi quando começou a escrever esta página semanal, que Enid teve a ideia de começar a publicar cartas como se estas fossem escritas pelo seu cão, onde relatava do ponto de vista de Bobs, o cão, tudo o que se passava na família durante essa semana. Estas cartas eram muito divertidas e Bobs quase foi tão popular entre os leitores, como a sua dona e veio a ser o primeiro animal que Blyton introduziu nas suas histórias.

A sua colaboração para esta revista é tão importante que a publicação passa a denominar-se “Enid Blyton’s Sunny Stories” e Enid decide escrever para a edição de 1937 uma história de aventuras que tenha continuação e cujo primeiro episódio vem a ser a “A Aventura na Ilha”. A ideia teve tal popularidade e a história tal sucesso, que pela primeira vez foi editada num livro completo, e logo os leitores reclamaram mais aventuras com o João, o Miguel, a Margarida e a Nora. Outros sete livros completam esta série. “A Aventura na Ilha” teve a primeira edição em Portugal em finais dos anos 60 pela Clássica Editora.

Embora Enid escrevesse histórias sobre outros temas, o seu êxito mais popular foi alcançado nas séries de aventura e mistério, nomeadamente na saga “Segredo” e “Os Cinco” que tão populares se tornaram também entre nós. Outro grande sucesso foi a colecção “Mistério” que contava com a intervenção de cinco descobridores e o seu cão, e que apareceram na sua primeira aventura em “O Mistério da Casa Queimada” em 1943. Em 1948, surge “O Clube dos Sete” na sua primeira aventura oficial. Em pouco tempo, grupos de crianças em toda a Inglaterra, imitavam “Os Sete”, organizando reuniões, criando símbolos para os seus grupos e utilizando linguagens secretas.

Mas o momento mais decisivo da popularidade de Enid foi ainda em 1949, quando publicou “Nodi no País dos Brinquedos”. Nodi foi a personagem mais triunfante para crianças muito pequenas e até hoje é tão popular como no início. As suas aventuras apareceram em livros, banda desenhada, televisão, filmes e jogos. Nodi tem mais visibilidade do que qualquer outra personagem inglesa. No início de 1950, Blyton deixou de escrever no Sunny Stories, para poder empenhar-se na sua nova revista, a “Enid Blyton’s Magazine”, revista que deu origem à criação de vários clubes que ajudavam a recolher fundos para organizações caritativas e sem fins lucrativos.

Enid morreu em 28 de Novembro de 1968, vitima do que é hoje conhecida por doença de Alzheimer, deixando mais de 700 livros escritos e perto de 5000 contos. Todos os anos lhe é prestado um tributo, o chamado “Enid Blyton Day”, organizado pela sociedade que tem o seu nome. Neste dia reúnem-se entusiastas que compram, trocam e vendem livros e outros colecionáveis e são realizadas palestras.

Passados 44 anos desde a sua morte, os livros de Enid continuam bem populares e a serem vendidos como as edições anteriores, tanto em Inglaterra como em todo o Mundo, incluindo Portugal. Quantos de vocês não conhecem, não leram ou não têm em casa um livro da Enid Blyton? Talvez “Os Cinco”, alguma “Aventura”, o “Clube dos Sete”, a  “Colecção Mistério”, “As Gémeas” ou “O Colégio das 4 Torres”…

Enid continua encantar-nos até hoje, com as suas histórias em que o Mundo é novo e verde, os dias, grandes e com sol, os adultos não têm uma intervenção relevante e as crianças podem fazer tudo o que desejam: explorar túneis secretos, acampar em ilhas com árvores e toda a natureza à volta, descobrir mistérios, procurar tesouros e até “vagabundear” no meio ambiente com carroças puxadas a cavalos. É um mundo mágico onde os bons ganham, a comida é em abundância e sempre há um final feliz. Pode haver melhor coisa que se queira ter?

Para ler e reler sempre! Até para a próxima semana.

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José Saramago: o nosso Nobel da literatura!

Bem vindos a esta rubrica semanal, em que vamos falar de um homem e escritor controverso, o prémio Nobel português da Literatura.

José de Sousa Saramago nasceu na Golegã em 16 de Novembro de 1922, tendo falecido em 18 de Junho de 2010 em Tías, Lanzarote. Foi um escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português, conhecido pelo seu ateísmo e iberismo.

A sua vida é passada em grande parte em Lisboa, para onde a família se muda em 1924, quando Saramago apenas tem apenas dois anos de idade. Dificuldades económicas impedem-no de entrar na universidade, tendo-se formado numa escola técnica. Contudo, ressalta da sua vida uma enorme curiosidade pelos estudos e pela cultura o que o leva, na juventude, fascinado pelos livros, a visitar à noite, com grande frequência, o Palácio Galveias, onde situava a Biblioteca Municipal Central.

Ao longo da sua vida, José Saramago vai desempenhar diversas profissões: começa por ser serralheiro mecânico, depois funcionário público, função a que acrescenta a de tradutor em 1955. Pouco depois troca de emprego, agora para trabalhar no Diário de Notícias e depois no Diário de Lisboa. Em 1975, retorna ao Diário de Notícias, como Director-Adjunto, onde permanece até ser demitido após uma dessas reviravoltas políticas em que o pós 25 de Abril foi pródigo. Saramago resolve então dedicar-se apenas à literatura, substituindo de vez o jornalista pelo ficcionista.

Aos 25 anos, publica o seu primeiro romance “Terra do Pecado” e depois deste, apresentou ao seu editor o livro “Clarabóia”. O original nunca lhe foi devolvido e também não recebeu resposta alguma. Na década de 1980, o já consagrado José Saramago foi contactado pela mesma editora para publicar aquela obra. A mágoa pela falta de resposta na juventude levou-o a declarar que não desejaria ver o romance editado em vida, deixando para seus herdeiros a decisão sobre o que fazer com o livro, os quais, após seu desaparecimento, decidem trazê-lo a público, vindo a ser publicado em 2011, pela Editorial Caminho.

Apesar da falta de resposta inicial acerca deste romance Saramago persiste no percurso literário e, dezanove anos depois, lança uma colectânea de poesia – “Os Poemas Possíveis” e, no espaço de cinco anos, publica mais dois livros de poesia: “Provavelmente Alegria” e “O Ano de 1993”.

Da sua passagem pelos jornais são de destacar quatro crónicas: Deste Mundo e do Outro, 1971, A Bagagem do Viajante, 1973, As Opiniões que o DL Teve, 1974 e Os Apontamentos, 1976.

Mas não são as crónicas, nem os contos, nem o teatro os responsáveis por fazer de Saramago um dos autores portugueses de maior destaque – esta missão está reservada aos seus romances, género a que retorna em 1977, três décadas depois de “Terra do Pecado”, com “Manual de Pintura e Caligrafia.”

Contudo, ainda não foi com essa obra que o autor definiu o seu estilo. As suas marcas características aparecerão com “Levantado do Chão”, livro de 1981 que é fruto, conforme o próprio autor declarou, de um sonho: falar sobre o Alentejo, sobre os alentejanos e a sua luta pela sobrevivência.

Cerca de dois anos depois surge o romance “Memorial do Convento”, livro que conquista definitivamente a atenção de leitores e críticos. Nele, Saramago misturou factos reais com personagens inventados: o rei D. João V e Bartolomeu de Gusmão, com a misteriosa Blimunda e o operário Baltazar, por exemplo. O contraste entre a opulenta aristocracia ociosa e o povo trabalhador e construtor da história – tornando este no seu personagem principal – servem perfeitamente a metáfora à medida da luta de classes marxista que Saramago professava.

De 1980 a 1991, o autor traz a lume mais quatro romances: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, sobre as andanças do heterónimo de Fernando Pessoa por Lisboa; “A Jangada de Pedra” em que se questiona o papel Ibérico na então CEE através da metáfora da Península Ibérica que se solta da nova Europa e encontrando o seu lugar entre a velha Europa e a nova América; “História do Cerco de Lisboa”, onde um revisor é tentado a introduzir um “não” no texto histórico que corrige, mudando-lhe o sentido, e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, onde Saramago reescreve o livro sagrado sob a óptica de um Cristo que não é Deus e se revolta contra o seu destino, questionando o lugar de Deus, do cristianismo, do sofrimento e da morte.

Nos anos seguintes, Saramago publicou mais seis romances. Dá, assim, início a uma nova fase da sua escrita. Os enredos não se desenrolam em locais ou épocas determinados e os personagens dos anais da história desaparecem. “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Todos os Nomes”, “A Caverna”, ”O Homem Duplicado”, “Ensaio sobre a Lucidez” e “As Intermitências da Morte” conduzem-nos de uma forma investigadora nos caminhos da sociedade contemporânea, questionando a sociedade capitalista e o papel da existência humana condenada à morte.

Em 1995, José Saramago recebe Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, sendo considerado o responsável pelo efectivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa e em 1998, é galardoado com o Nobel de Literatura.

Saramago faleceu no dia 18 de Junho de 2010, aos 87 anos de idade, na sua casa em Lanzarote.

“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores.(…)” dizia Saramago, que fica lembrado para sempre pelo seu estilo oral, típico dos contos de tradição popular em que a vivacidade da comunicação é mais importante do que a correcção ortográfica de uma linguagem escrita. Caracterizam-se pela utilização de frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. A inserção dos diálogos das personagens nos próprios parágrafos que os antecedem, leva a que, dessa forma não existam travessões nos seus livros. Este tipo de marcação das falas faz com que o leitor chegue a confundir-se sobre se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Estas características tornam o estilo de Saramago único na literatura contemporânea, sendo considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Em 2003, o crítico norte-americano Harold Bloom, no seu livro “Génio: Um Mosaico de Cem Exemplares Mentes Criativas”, considerou José Saramago “o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje”, referindo-se a ele como “o Mestre”. Declarou ainda Saramago como “um dos últimos titãs de um género literário que se está a desvanecer”. Recordando assim a memória deste que é o nosso prémio Nobel da Literatura, despeço-me até para a semana que vem.

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Júlio Dinis: o médico escritor

Olá de novo. Hoje, em “Livros, leituras e companhia”, falamos de mais um autor português, um homem de palavras simples, mas de espírito erudito.

Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que no período mais brilhante da sua carreira literária usou o pseudónimo de Júlio Dinis, nasceu no Porto a 14 de Novembro de 1839 e faleceu, apenas com 32 anos, na mesma cidade 12 de Setembro de 1871.

Júlio Dinis frequentou a escola primária em Miragaia e aos catorze anos de idade concluiu o curso preparatório do liceu. Matriculou-se inicialmente na Escola Politécnica, tendo, em seguida, transitado para a Escola Médico-Cirúrgica do Porto, cujo curso completou com alta classificação.

Já então sofria de tuberculose pelo que, esperançado em encontrar cura no ambiente mais salutar da província, se transferiu temporariamente para Ovar, para casa de uma sua tia e, esperançado numa cura de ares, esteve por duas vezes na ilha da Madeira, além de outras peregrinações que terá feito através do país.

Apontado como o criador do romance campesino, Júlio Dinis foi um escritor de espaços, oferecendo-nos na sua prosa verdadeiros quadros, quer nas descrições das aldeias e dos ambientes, quer no desenvolvimento da intriga e ainda na definição dos caracteres das suas personagens, tiradas, na grande maioria, de pessoas com quem viveu ou contactou na vida real, e que estão imbuídas de tanta naturalidade que muitas delas nos são ainda hoje familiares. É o caso da tia Doroteia, de «A Morgadinha dos Canaviais», inspirada na tia em casa de quem viveu, quando se refugiou em Ovar, ou de Jenny, personagem de “Uma família Inglesa” para a qual recebeu inspiração da sua prima e madrinha.

Apesar da sua doença, causadora também da morte prematura da mãe e dos seus oito irmãos, Júlio Dinis viu sempre o mundo pelo prisma da fraternidade, do optimismo, dos sentimentos sadios do amor e da esperança.

A ascendência irlandesa de sua mãe permitiu-lhe o contacto e o conhecimento da língua e cultura inglesa, e Júlio Dinis foi leitor de Jane Austen, Thackery e Dickens, captando nesses autores o seu realismo psicológico, que, mesclado com o seu supra referido optimismo, coroou o desfecho as suas obras em finais de felicidade amorosa e harmonização social.

Quanto à forma, Júlio Dinis é considerado um escritor de transição entre o romantismo e o realismo, pois que se a sua escrita se encontra marcada pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo existência do indivíduo, características que apelam ao primeiro, o seu desejo de retratar o homem e a sociedade na sua totalidade, faz já prever as características que haveriam de pautar o segundo destes estilos.

Além do pseudónimo de Júlio Dinis, o escritor usou também o de Diana de Aveleda, com que assinou pequenas narrativas ingénuas como «Os Novelos da Tia Filomena» e o «Espólio do Senhor Cipriano», publicados em 1862 e 1863, respectivamente. Foi, aliás, com este pseudónimo que se iniciou nas andanças das letras, tendo, com ele, assinado também pequenas crónicas no Diário do Porto.

O romance «As Pupilas do Senhor Reitor» foi publicado em 1869, em folhetins do Jornal do Porto, tendo sido até hoje sido representado e adaptado ao cinema. Um ano antes, tinha sido dado a público «Uma Família Inglesa» e, em 1870, veio a público «Serões da Província».

No ano do seu falecimento, 1871, publicou-se o romance «Os Fidalgos da Casa Mourisca». Só depois da sua morte se publicaram «Inéditos» e «Esparsos», em dois volumes, assim como as suas «Poesias», estas entre 1873 e 1874.

No meu tempo de liceu, lia-se Júlio Dinis, nomeadamente “A Morgadinha dos Canaviais”, uma obra que ilustra uma das teses favoritas do autor: o efeito regenerador da vida rústica sobre um organismo moralmente deprimido pela vida urbana. Julgo que o autor e a obra ainda fazem parte do Plano Nacional de Leitura, mas, mesmo que essa não seja a razão, vale a pena ler Júlio Dinis.

Boa semana para todos!

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Kate Morton: a Austrália aqui tão perto…

De novo convosco nesta edição semanal de “Livros, leituras e companhia”.

Vamos visitar hoje um continente cuja literatura vai agora começando a estar divulgada entre nós. Refiro-me à Oceânia, falando neste programa mais especificadamente da literatura e de uma autora australiana. Mas fica a promessa de continuarmos a nossa viagem para a Nova Zelândia.

Embora procedam da tradição literária inglesa, de onde receberam influências de estilo e convenções, desde o princípio que as literaturas australiana e neozelandesa desenvolveram características e personalidades próprias.

Os primeiros colonos estabeleceram-se na Austrália em 1788. A maioria era constituída por delinquentes deportados e soldados, logo seguidos por colonos livres. O encontro com um novo mundo e as peculiaridades da sociedade que ali se desenvolveu foram factores determinantes para que os primeiros escritos surgidos fossem de natureza descritiva.

A literatura australiana do século XIX, marcada pela falta de estilo próprio e maturidade, evoluiu continuamente para os temas locais. Cronologicamente, a poesia precedeu o romance e este o teatro. Em 1819 surgiu em Sidney a primeira obra impressa na colônia, vindo o romance a surgir por volta de 1850. Os primeiros textos faziam descrições pitorescas das condições de vida na colônia, do banditismo à febre do ouro.

A partir do século XX o sucesso dos prosadores superou o dos poetas.

Os temas nacionalistas foram aos poucos perdendo força e a atenção voltou-se para a vida urbana, nomeadamente na descrição da relação dos aborígenes com os colonos.

A literatura dramática da Austrália, ainda que pouco numerosa, cresceu ao longo do século XX.

E é precisamente no século XX que nasce Kate Morton, em 1976 em Berri, Austrália do Sul. Kate licenciou-se inicialmente em Teatro e, mais recentemente, em Literatura Inglesa. Vive actualmente com o marido e os dois filhos em Brisbane, num palacete do século XIX repleto de mistérios.

Kate Morton é a mais velha de três irmãs. A sua família mudou-se várias vezes antes de se decidir pelas montanhas do Sudoeste de Queenland, onde Kate cresceu e frequentou a escola. Sempre gostou de ler, rodeando-se desde cedo dos livros de uma autora de que falaremos também aqui: Enid Blyton .

Enquanto jovem, Kate estudou Inglês e Literatura na Universidade de Queensland, depois de ter feito uma passagem por Londres, através de uma bolsa de estudos que obteve e onde concluiu um mestrado centrado no estudo da tragédia na literatura vitoriana. Está actualmente a pesquisar romances contemporâneos que unem elementos do gótico e ficção mistério para fazer o seu doutoramento.

Escreve, entretanto, dois manuscritos (que ainda permanecem inéditos) antes de escrever a história que se tornaria o seu primeiro romance em 2006  – The Fog Shifting  – The House at Riverton, traduzido em português como “O segredo da  Casa de Riverton” e editado pela Porto Editora em 2008. Num ambiente e numa escrita misteriosa, o livro conta a história do segredo guardado muito tempo por Grace Bradley, de avançada idade, que era uma empregada doméstica em Riverton Manor, durante os anos de 1920.

“O Jardim dos Segredos”, é o seu segundo romance, publicado em Portugal pela Porto Editora em 2009, e nele se revela o mistério à volta de uma criança que em 1913, é encontrada só, num barco que se dirige à Austrália. Uma mulher misteriosa prometera tomar conta dela, mas desapareceu sem deixar rasto… Retomando com grande mestria o tema do suspense e do mistério, Kate Morton leva-nos ao passado, pelo caminho imponderável das memórias.

O terceiro romance de Kate Morton, “As Horas distantes”, foi publicado, também pela Porto Editora em 2012. Num castelo em ruínas, duas gémeas aristocráticas e uma irmã perturbada e uma série de sombrios segredos lançam um sussurrante feitiço neste novo livro, em que tudo começa quando uma carta, perdida há mais de meio século, chega finalmente ao seu destino…

Com a atribuição de inúmeros galardões e críticas muito favoráveis, a obra de Kate Morton é um sucesso, quer nacional, quer internacional, encontrando-se traduzida em muitas línguas.

Sabendo que das paragens mais distantes nos chegam histórias fantásticas que abrem o apetite à leitura, deixo-vos com desejos de uma semana recheada de bons livros!

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx E a

E a Senhora de hoje: Laura Esquível. Para a semana voltaremos, se Deus quiser!

Olá, bem-vindos a este espaço repleto de livros e leituras que nos fazem proveitosa companhia.

Hoje vamos falar de uma escrita que irrompe nos nossos sentidos, que os cativa como pasto para histórias, ou melhor, como forma de contar histórias. Quero falar-vos de Laura Esquível, escritora mexicana que se distingue pela forma original que enquadram os seus escritos e as suas histórias. Laura nasceu a 30 de Setembro de 1950, na cidade do México e fê-lo no seio de uma família católica. Na sua juventude, e na ânsia de procurar novas experiências, estudou filosofias orientais, praticou meditação e seguiu uma dieta vegetariana. Não obstante, Laura foi grandemente influenciada pela sua avó, uma autêntica matriarca da família, que se costumava reunir com as mulheres na cozinha, lugar que Laura Esquível veio a considerar ideal para que o sexo feminino possa partilhar pensamentos íntimos. Ao longo da sua vida profissional como educadora de infância, Laura recorreu várias vezes ao seu espírito criador para escrever peças de teatro infantis e, dessa forma, suprir a falta de material didático, o que fez com que posteriormente viesse a trabalhar como dramaturga para um canal infantil de televisão. Esta situação veio a proporcionar-lhe estudar cinema e aí inicia uma carreira como argumentista com o filme “Guido Guán Y Los Tacos De Oro”, nomeado para o Prémio Ariel da Academia das Ciências e Artes Cinematográficas. Decidiu prosseguir com um novo argumento, mas devido à escassez de fundos necessários, não chegou a rodá-lo, preferindo converter o argumento no formato de romance. Surge assim, em 1989, “Como Agua Para Chocolate” romance que nos relata a história de Tita de La Garza, e cuja acção decorre no princípio do século XX, no Norte de um México à beira da Revolução. Como é tradicional nesse país, Tita, por ser a filha mais nova, não pode casar, para que fique a cuidar da sua mãe na velhice. Escrito por Tita na primeira pessoa, este romance introduz-nos através da cozinha da casa e decorre entre receitas de iguarias várias e suculentos pratos confeccionados ao sabor dos mais diversos sentimentos, sendo único na sua forma originalíssima de contar uma história. Foi um sucesso de vendas considerável e internacional, acabando o livro por ser adaptado para o cinema em 1993, onde arrebatou dezoito galardões internacionais.

Na obra que se segue a este “Como água para chocolate”, Laura Esquível não deixa de nos surpreender. Em “A Lei do Amor”, apresenta-nos o primeiro romance “multimedia” da história da literatura: uma fábula futurista, sensual e impertinente, onde ressoam Shakespeare e Almodóvar, que nos passeia pelo tempo e pelo espaço, no passado e no presente. Na sociedade do ano 2200, os CD estão submetidos a um rigoroso controlo, dado que os indivíduos podem revisitar as suas vidas anteriores escutando determinadas peças de música. Assim, o livro é acompanhado por um disco compacto que contém fragmentos de óperas de Puccini e canções de recorte popular, cuja audição deve ser feita em determinados momentos da leitura, especificamente indicados no livro. Há também as ilustrações de Miguelanxo Prado, que de tempos a tempos, transformam em imagens o desenrolar da própria história. Através destas técnicas simples, a escritora enriquece a sua obra, onde o ódio e o amor se confrontam à descoberta da mais secreta e da mais conhecida de todas as leis universais.

“A Pequena Estrela-do-mar”, “Tão Veloz Como o Desejo”, e uma recolha de contos com o título “Intimas Suculências, Tratado Filosófico de Cozinha”, são as obras que se seguem, sendo “ O Livro das Emoções” a sua mais recente obra.

Neste pequeno livro, há uma espécie de diálogo entre a emoção e o pensamento, numa dinâmica que nos leva a interrogarmo-nos sobre várias questões: será que a alegria nos cura? que a tristeza nos põe doentes? por que razão, reinam agora a depressão e o stress? A memória é um armazém pessoal de emoções e é por essa razão que há pessoas, livros, filmes que nos agarram o coração, e outros que nos provocam repulsa? Respondendo a estas e a muitas outras perguntas, Laura Esquivel consegue que este livro nos fale de uma nova forma de liberdade.

Editados pela Asa, os livros desta escritora encontram-se todos traduzidos em português e à espera de serem adquiridos em qualquer livraria e também através da internet a preços muito acessíveis.

28/09/2012 at 16:42 Deixe um comentário

Outro programa na +Oeste Radio – o de dia 10 de Agosto último

É com gosto que nos reencontramos neste espaço em que se fala de livros, leituras e companhia.

Desde há alguns anos que se vem tornando hábito as figuras públicas verem ser editados os livros que escrevem. De entre alguns desses casos, destaca-se o de Júlio Magalhães, ex-director de informação da TVI, editor e pivot dos telejornais daquela estação ao fim-de-semana, e actualmente director-geral do Porto Canal.

Nascido nessa cidade a 7 de Fevereiro de 1963, este que é um dos rostos mais conhecidos do jornalismo português, foi para Angola com sete meses, tendo vivido um ano em Luanda e doze em Sá da Bandeira. Em 1975 regressou a Portugal, mais precisamente, para a cidade do Porto. É esse regresso que conta em “Os Retornados – Um amor nunca se esquece”.

A acção situa-nos em Outubro de 1975. Quando o avião levantou voo deixando para trás a baía de Luanda, Carlos Jorge deixava em Angola um pedaço de terra e de vida para partir rumo ao desconhecido e a uma pátria que não era a sua. No voo, cruza-se com Joana, a hospedeira do mesmo, que também não consegue ficar indiferente ao drama dos passageiros que sobrelotam o voo 233, que vem a considerar o mais difícil da sua carreira

Foram milhares os portugueses que entre 1974 e 1975 fizeram a maior ponte área de que há memória em Portugal, abandonando tudo: emprego, casa, terras, fábricas e amigos de uma vida.

Esta sua primeira obra de ficção, em que Júlio Magalhães narra, como se disse, uma história de amor que tem como cenário os conturbados momentos finais da África português, é baseada na sua própria experiência.

Depois de “Os Retornados – Um amor nunca se esquece”, Júlio Magalhães escreve “Um Amor em tempos de guerra”.

Neste segundo romance, o autor conta a história de António, que, como se pode ler “ (…)é um homem que nasceu marcado pelo “mesmo nome que o vizinho da rua das traseiras, o homem que se fez doutor em Coimbra e que ia à terra sempre que podia, o tal que governava o país com pulso de ferro.(…)” António, contudo tem outro destino: a guerra em Angola, de onde regressará um homem completamente diferente e irreconhecível para os que deixou para trás na sua terra – a sua inconsolável mãe e Amélia, a mulher que pedira em casamento antes de partir. António vem marcado no corpo por anos de guerra e de cativeiro, e no coração por um amor impossível que deixara no mato angolano.

Ambos os livros foram editados pela Esfera dos Livros, indo já na15ª edição e 10ª edição, respectivamente, tornando-se assim em dois “bestsellers” com mais de 75.000 exemplares vendidos.

Despedimo-nos até ao próximo programa com votos de boas leituras!

 

16/08/2012 at 10:45 Deixe um comentário

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